O dia que varreram a areia da praia

O que o menino mais gosta na vida é brincar na praia, ficar sentado debaixo do guarda-sol, enrolado na sua toalha azul, olhando o mar. O que será que tem lá dentro?

— Lá dentro tem tesouros e tesouros perdidos, filho. Nunca ninguém conseguiu alcançar.

— Tesouro, mã?

— É, tesouro. Uma porção de moedas de ouro, colares, pulseiras, anéis, jóias, que os piratas roubavam e jogavam no mar. Tudo escondido e misturado dentro dos baús.

— Piratas, é?

— Piratas!

— Baú?

— Sim, baús. Umas caixonas enormes, com cadeados deste tamanho!

Naquela manhã de céu azul, o menino estava com a mãe brincando na areia da praia, quando apareceu o caminhão. Buzinando, fazendo barulho, chamando atenção. Assustando todo mundo. Uns homens grandes desceram com vassouras imensas, pedindo licença.

— Circulando! Nós vamos varrer a areia da praia! Circulando!

A mãe recolheu o baldinho e os outros brinquedos, e puxou o menino pelo braço. Foi o maior berreiro. Ele gritou e esperneou tanto, que convenceu a mãe a ficar ali, olhando aqueles homens e aquelas vassouras varrendo a areia da praia.

— Quero ver o tesouro dos piratas, mã!

Ficaram sentados no banco do calçadão da praia. Vendo.

Os homens varreram, varreram e varreram. Quanto mais passavam suas vassouras, mais a água do mar ia embora pro outro lado, lá pro fundão. Varreram até acabar por completo com a areia da praia.

— Uia!

Debaixo da areia da praia só azulejos. Esverdeados. Debaixo da areia da praia o chão não era plano. Havia montanhas, subidas e descidas. Ninguém podia imaginar.

O menino arregalou os olhos.

— Cadê o tesouro?

O menino estendeu a mão para a mãe e entraram no mar. Quando chegaram na parte mais alta da primeira montanha, o menino logo pediu sua toalha azul, sentou-se nela e foi escorregando morro abaixo no tobogã de azulejos. A velocidade foi tanta que ele quase se esborracha num sofá velho e desbotado.

— Nem doeu!

O menino sorriu amarelo, começou a pular no que restava de sofá.

— Vem, mã! Mó legal!

A mãe fez cara de brava. O menino saltou do sofá e deslizou em direção a uma pilha de pneus.

—Será que o tesouro tá escondido aqui?

O menino pegou um pneu careca e rolou-o pra cima de um monte de latas de bebidas, descoloridas.

— Ó!

O pneu foi pulando, pulando sobre as latas, amassando-as, indo parar numa televisão de tubo, virada com a tela pra cima.

— Será que os peixinhos conhecem o Bob Esponja?

O menino escalou, correndo, um morro bem alto à sua frente e olhou para o outro lado.

— Ixi!

A mãe subiu, curiosa, sem jeito, apoiando-se com as mãos, escorregando nos azulejos. Os olhos do menino brilhavam.

— Será que o tesouro está perdido ali no meio?

Do outro lado da montanha verde e lodosa, numa espécie de planície, sapatos, tênis, roupas rasgadas, brinquedos e bonecas sem cabelos formavam um morro assustador. Motores de barcos, lanternas, pilhas, ventiladores, máquina de escrever, espelhos, panelas, velas, sacos plásticos e outras coisas que nem a mãe do menino sabia o que eram completavam o cenário. Até carro sem rodas e sem portas tinha ali.

O menino, cansado, enrolou-se na sua toalha azul, sentou-se, e ficou olhando o fundo do mar.

— Como é que é mesmo esse tesouro dos piratas, mã?

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