O enterro do Porco

— Cê tá de brincadeira. Para com isso!

— Infarto fulminante, tio!

— O Porco morreu?

— Tava vendo horário político na tevê…

— Quando foi isso?

— Agorinha! Vem pra cá, tio.

O Porco, nascido Bráulio de Britto, sempre foi gordinho. Desde criança. Gordinho, não. Gordão. Balofão. Daí o apelido que ganhou já na tenra idade. Nunca ligou pra isso. Dava risada. Simpático, brincalhão, de bem com a vida. A notícia caiu feito uma bomba para os habitantes da pequena cidade. Era querido por todos.

Mais do que depressa, Babá, seu melhor amigo, desde sempre, pouco mais ‘magro’ do que ele, desliga o telefone, levanta-se do sofá, tira o bermudão (seu uniforme caseiro), veste a primeira calça que vê pela frente, enfia o velho mocassim amarelado nos pés, sem meia mesmo, coloca sua melhor camisa e voa para a casa do Porco.

No caminho, relembra os momentos que viveram juntos, desde o grupo escolar (caíam sempre na mesma sala, o Porco era o primeiro da classe) até as últimas reuniões, recentes, na Maçonaria. Recorda-se dos jogos de futebol na rua em frente da sua casa (o Porco jogava no gol, o gol era entre uma árvore e o muro de uma casa, na calçada de cá, e da mesma forma, na calçada de lá); dos jogos de botão (quando o Porco perdia, queria sair na porrada com todo mundo); dos campeonatinhos pra ver quem ejaculava mais longe (nos vestiários do antigo estádio de futebol da cidade, o Porco era imbatível); dos primeiros bailinhos no clube (o Porco gostava de ir para assistir, não dançava nem bebia, tomava guaraná e comia batatinha frita a noite inteira); das primeiras namoradas (o Porco era meio tímido pra essas coisas); dos tempos que davam aulas numa escola da periferia, pra levantar um troco (certa vez, o Porco tomou toda a sopa dos moleques do ginásio, sendo denunciado em um programa da rádio local, tipo Ratinho, piorado); da faculdade, dos casamentos, dos primeiros filhos…

Quando Babá chega na casa do amigo morto, cai a ficha: como é que vão colocar esse gordo no caixão?

— Pode ficar sossegado, tio! O moço da funerária tá trazendo a Urna-Baleia. Já ouviu falar?

Babá jamais imaginara existir uma coisa dessas: Urna-Baleia! Tem o dobro de altura e de largura do caixão tradicional. Mais: possui alças na frente e atrás, para duas pessoas carregarem, além de mais três laterais, duplas. Quer dizer, dá para 16 pessoas. Mais ainda: almofadada e com travesseiro. Pelo menos o traslado do Porco está garantido. E com todo o conforto que ele merece.

A Urna-Baleia chega, colocam o Porco lá dentro – está risonho, parece feliz. Bonito, até. Babá, parentes, vizinhos ajudam os moços da funerária a levar o caixão até a perua. Partem para o cemitério.

O cemitério antigo está lotado, no limite de sua capacidade. O féretro anda um pouco mais até o novo, moderno, no quarteirão seguinte. Os dois cemitérios ficam na Avenida da Saudade, na Vila Moreira, bairro da parte alta do município. Quando alguém morre na cidade, anunciam aos quatro cantos: fulano vai subir a Vila Moreira de costas.

No cemitério novo, os caixões são colocados em urnas pré-construídas. São muretas de uns 60 centímetros de altura, mais ou menos, que formam um retângulo, onde o caixão é colocado dentro. Depois, tampa-se com blocos de concreto.

Acontece que o caixão, ou melhor, a Urna-Baleia não coube na urna pré-fabricada. Enroscou logo na entrada. O coveiro-chefe, conhecido na cidade por Taturana, devido ao vasto bigode que cultiva desde a adolescência, ordena aos dois jovens ajudantes que abaúlem as laterais internas das muretas, para encaixar direitinho o caixão. Enquanto os meninos trabalham, Taturana solicita aos familiares e amigos para apoiar a Urna-Baleia em uma das muretas.

A mureta, feita de tijolos e barro (água misturada com terra, dali mesmo do cemitério), não resiste ao peso e desmorona, derrubando o caixão.

— Mais respeito aí com o Porco, gente! – grita uma mulher.

— Apoia na outra mureta! – sugere Taturana.

A outra mureta também não agüenta com o peso do caixão.

— Leva o Porco de vorta pra perua – fala, já nervoso, o amigo Babá, olhando para o relógio.

Os dois ajudantes do coveiro não estão nada satisfeitos.

— Tá na minha hora, seu Taturana! – diz um deles.

— Esse gordo vai atrapalhar o meu pagode, já vi tudo… – cochicha, o outro.

Enquanto Taturana e seus jovens auxiliares reconstituem as muretas, um parente próximo tem a ideia de enterrar o Porco no cemitério antigo, no túmulo dos sogros.

— Parece que lá tem uma gaveta disponível. O túmulo é uma beleza! Dois anjos enormes, porta-retrato, todo de mármore…

— Cês tão de brincadeira! – diz, em alto e bom som, o amigo Babá, já transpirando.

— O Porco nunca se bicou com o sogro, que sempre foi rico e nunca deu um puto pra ele, e muito menos com a sogra, que sonhava ter um genro galã de Róliude.

O sol já se esconde no horizonte. Um belo visual, para iluminar um momento tão triste. Bate aquela dor de barriga desgraçada no Babá. Quando isso acontece, sempre à mesma hora, ele tem de resolver a situação imediatamente. Caso contrário, inicia-se um processo de flatos, incontrolável e insuportável, e isso não vai ser nada agradável no enterro do melhor amigo. Retira-se à francesa, aliviando-se pelo cemitério afora.

Já está escuro quando conseguem, finalmente, enterrar o Porco.

— Cadê o Babá, gente? Só tá faltando ele pra fechar a tumba, jogar uma flor…

Babá já está em casa. Bermudão. Banho tomado. Tomando uma. Morrendo de saudades do Porco.

Comments are closed.