Oitenta e poucos (II)

Aquele meu amigo com oitenta e poucos nas costas, charmosão até hoje, além de mulherengo, é sistemático. Aos sábados e domingos vai sempre almoçar no mesmo restaurante e senta-se na mesma mesa. Há séculos.
Ele me contou outro dia que recentemente apareceu no restaurante uma jovem bem vistosa e interessante, também só nos fins de semana, sentando-se sempre em uma mesma mesa bem em frente da dele. Ela chega, chama o garçom pelo nome, pede um balde cheio de “estelinhas” e depois um filezinho de linguado com limão. Não olha para os lados nem para a frente, na direção dele. Bebe bem, come bem e vai embora de nariz e bunda empinados.
O garçom deve ter percebido ele dando umas olhadas para a mesa dela de vez em quando. Como já estava íntimo dos dois clientes, resolveu aproximá-los, ou melhor, provocar o meu amigo.
— Esse garçom, magrinho, acho que é pernambucano, cheio de malícia, chegou na minha mesa e disse assim: reparasse como ela olha para o senhor? Pensei que ele estivesse brincando.
— E você?
— Eu, o quê?
— Você fez o quê?
— Eu fiquei na minha, ué, imagina, uma menina daquela, com idade pra ser minha neta, paquerando o vovô? Nada a ver.
— E daí?
— Daí que eu comecei a encarar, só pra ver a reação dela, e também para descobrir se o pernambuquinho não tava tirando uma da minha cara. Só que ela me ignorou, como sempre.
E não é que num outro domingo, quando a moça estava saindo do restaurante, depois de tomar um balde de Stela e vários copinhos de vodca, perguntou ao atendente-amigo quem era aquele coroa ali daquela mesa, apontando para ele. Ele percebeu e ouviu.
— Fiquei maluco quando escutei aquilo. Tô arrepiado só de lembrar.
— E daí?
— O garçom veio buzinar no meu ouvido: não lhe disse, não lhe disse que ela tá afins de colar no senhor?
O jovem pernambucano ainda teve que traduzir para o idoso que “colar” queria dizer aproximar, chegar junto, fazer amizade.
No outro sábado, nosso eterno paquerador, que nunca foi bobo nem nada, antes de sair para o almoço foi na sua caixinha de remédios e pegou logo o azulzinho. Partiu-o ao meio (metade já dá pro gasto, ensina) e foi para o restaurante, desta vez arrumado, penteado e perfumado. Colocou o comprimido cortado no banco do carona do seu velho Corola, receoso de cair do bolso da bermuda, pois fora todo paramentado de jovem, estreando o sapatenis comprado para a ocasião, combinando com a camisa polo.
Lá estava ela na mesma mesa acompanhada pelas suas estelinhas de sempre. Ele, na dele, já na segunda caipirinha de cachaça, cortesia da casa. Trocaram olhares. Ele, que não nasceu ontem, foi lá: posso sentar? Fique à vontade.
Beberam muito e comeram. No final da tarde, quando ele pediu a conta, não aguentou, aproximou seu rosto do dela.
— Falei na lata: estou com vontade de te dar um beijo, sabia? Ela, na mesma hora, sem piscar: eu também. Me disse olhando para a minha boca, por Deus do céu!
— Beijou?
— Não.
— Não???
— Ali, na frente dos garçons? Podia pegar mal, ia virar a maior gozação. Ela falou com aquela voz rouca dela: vamos pra minha casa. Não acreditei naquilo, topei na hora. Imagina!
Combinaram de ele seguir o carro dela. Entrou no seu velho Corola, lembrou-se que tinha colocado o remédio em cima do banco do carona, mas cadê? Acendeu a lanterna do celular e começou a procurar, olhou debaixo do banco, atrás, e não achou. Nisso, ela já tinha dado partida e saído do estacionamento do restaurante em alta velocidade, cantando os pneus, com seu carrão branco, que ele não conseguiu identificar a marca, mas jurou que era importado e que devia custar uma fortuna. Ele ligou rápido o seu e foi atrás, apalpando o banco ao lado para ver se o naco do remédio não podia estar preso entre o assento e o encosto. Nada.
A jovem (não tinha 40, observou bem) morava em uma mansão. Nem bem atravessaram o enorme jardim, entraram na casa e já no hall começaram a se pegar. Foram se agarrando até caírem num dos sofás da sala. De repente, ela se levantou e disse: “Espera aqui, vou pegar um aperitivo”. E saiu em direção à cozinha.
— Só a sala da casa era maior que o meu apartamento inteiro, acredita? E os tapetes? Do sofá dava pra ver a piscina gigante lá fora, toda iluminada, uma beleza.
— E daí?
— Ela voltou com uma garrafa de Wyborowa trincando e dois copinhos desses de tomar vodca. Só de calcinha.
— E daí?
— Quer saber dos peitos dela?
— Também, mas o que aconteceu?
Meu amigo me contou que naquele momento estava puto da vida com ele mesmo por ter perdido o remédio, não se conformava com aquilo. E que ela não parava de falar. Disse que o apartamento era presente de um coroa, pai do filho dela, um adolescente gordinho que passou pela sala sem olhar para eles e saiu com a namorada igualmente gordinha e antipática. Disse também que ia dar um pé na bunda do coroa.
— Ela devia estar achando que eu era milionário, pensei na hora. Coitada.
Ficaram ali no bem-bom, bebendo e se beijando e se pegando, ela sentada de frente no colo dele, com as pernas envoltas na sua larga cintura. A dona da casa o convidou para irem para o quarto. Ele hesitou, desprevenido que estava, mas foi.
— Precisa ver o tamanho da cama da mulher. Aquilo não é King Size, é King Kong, cheia de almofadas, dava pra dormir uma família inteira ali.
— E daí, comeu?
— No estado que eu estava? Com aquele tanto de cachaça, cerveja e vodca na cabeça? Desmaiamos. Depois de um tempo, acordei, morrendo de sede. Ela aparece de banho tomado, enrolada em uma toalha branca, toda cheirosa, deita do meu lado, e sussurra com aquela voz: dorme aqui comigo hoje, neném.
Ele parou de falar, como que pensando no que ia me dizer. Ficou um bom tempo em silêncio, cabisbaixo.
— E daí? Conta!
— Conta, o quê?
— Que você, nessa idade, pega uma mulher como essa, ela tira a roupa, senta no seu colo, te convida pra dormir com ela e você fez o quê?
— Vesti a minha roupa e fui embora pra casa.
— Não quis dormir, acordar com ela ao seu lado? Não acredito.
E ele, na maior paz de espírito, olhando nos meus olhos:
— Dormir, pra ficar acordando de dez em dez minutos pra fazer xixi? Tô fora, mermão! Nessa idade?

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