Oitenta e poucos

Tenho um amigo já com mais de oitenta anos nas costas, separado há mais de cinquenta. Poucas namoradas sérias, uma ou duas, mas a vida toda mulherengo, sempre fui o homem mais lindo da minha cidade (veio do interior), da minha cidade e da região, faz questão de frisar.
Agora, vive para os filhos e os netos. Solitário.
Ele me contou que outro dia reencontrou uma amiga dos tempos de juventude, bem mais jovem do que ele. Meia ponto cinco nas costas, mas aparenta uns cinquenta no máximo, te juro pra você, ele já foi falando antes mesmo que eu perguntasse qualquer coisa.
Essa amiga, quando ele se casou, no dia do enlace, ao cumprimentá-lo na saída da igreja, sussurrou-lhe ao ouvido, você não soube me esperar, deixando-o todo arrepiado ali mesmo diante da fila enorme dos cumprimentos. Ele jamais se esqueceu disso.
Agora, o reencontro num shopping. Conversa rápida, ela estava com duas amigas, ele ficou sem graça. Na despedida, ela deu-lhe um beijo, metade no rosto metade nos lábios, por cima da máscara (só tiraram as máscaras assim que se viram, para reconhecimentos, recolocando-as imediatamente, já que o segurança se aproximava olhando feio). A gente precisa se ver, baby, falou a senhora. E saiu rebolando, a desgraçada, tava com uma calça branca bem apertada, ele reparou.
Meu amigo ficou louco, sempre tive esse teretetê com essa moça, mas nunca rolou nada, só flertes, mas agora?
Fiquei feliz com essa história, a vida está lhe dando uma chance de amor e ainda com uma mulher amiga, bonita e nos trinques, você viveu sozinho todos esses anos, aproveite a oportunidade, o incentivei. Amanhã eu ligo pra ela, desconversou.
Encontrei-me com ele num outro dia. Semana que vem eu ligo, te juro, já veio se desculpando. Perguntei se ele estava com medo dela. Sei não, esse negócio de se apaixonar é muita preocupação pra cabeça, o tempo todo pensando, imaginando coisas, perdendo o sono, uma merda, ele resmungou.
Passaram-se mais uns dias. Ligou, cuzão? Liguei! E aí, foi bom pra você? Foi sim: ela conseguiu acabar com as baterias dos dois telefones sem fio que eu tenho em casa. Dois? Sim, quando o primeiro, que fica na sala, começou a piscar avisando que tava acabando a bateria, corri para o quarto que fica na parte de cima e já peguei o outro, pra não parecer depois que bati o telefone na cara dela, deu microfonia, sabe, aquele apitinho ardido, ela nem percebeu e continuou falando sem parar até acabar com a bateria do segundo também, duas baterias!
Mas ela dizia o quê? Sei lá, chegou uma hora que eu não prestei mais atenção, falava de maconha, do filho dela que tomou um pé na bunda da mulher, de não sei mais o quê, só não desliguei pra não ser mal educado.
Fiquei sem jeito de rir na cara dele, estava sério. Ao menos marcou um encontro com ela? Se pelo telefone ela me descarregou duas baterias, imagina presencialmente. Ficamos um tempo em silêncio.
Tô fora, mermão! Nessa idade?

Comments are closed.