Olha lá no placar!

 Outro dia, vendo o meu glorioso Clube Atlético Linense pela tevê, reparei que o placar do estádio em que ele jogava ainda era manual. Saiu o primeiro gol do Elefante (assim é chamado o esquadrão), um garoto trepou numa escada e colocou o número 1 ao lado do nome do time de Lins.

Lembrei-me na hora da história do Zé Baiano.

Assim que deixou o Exército, no início dos anos 1970, no Rio de Janeiro, Zé Baiano fez curso de eletricista no Senai e conseguiu emprego no Maracanã. No estádio, só não jogou bola no tapete verde do maior do mundo porque nunca foi convocado. De resto, deitou e rolou: cuidou da luz, do portão, das catracas, da limpeza das arquibancadas e até dos banheiros. Função esta, aliás, que odiava, principalmente depois dos grandes clássicos. Torcedor mija muito de nervoso, reparasse?

Ainda teve o privilégio de assistir a um parto em um Fla-Flu de Maraca lotado num domingo de sol carioca. Uma mulher passou mal, foi levada para a enfermaria e deu à luz a uma menina, sob o barulho ensurdecedor das torcidas. Essa é flamenguista roxa, brincou ele com o pessoal do pronto-atendimento assim que a criança veio ao mundo, para, em seguida, chorar feito um bebê. Pura emoção.

Depois de um tempo, pelos bons serviços prestados ao Mario Filho (nome do Maracanã), Zé Baiano foi promovido: ficou responsável pelo placar. Justo o placar, para onde mais de 100 mil pessoas, em grandes jogos, dirigiam olhares de amor e ódio durante 90 minutos, no mínimo. E o Zé lá dentro, transpirando, solitário, escondido, com os olhos arregalados nas torcidas, nas bandeiras, no jogo, no juiz, nos ídolos, em tudo. Mais ligado do que todos!

Naquela época, o placar era feito à mão. Havia uma caixa com as letras do alfabeto, onde o funcionário montava os nomes dos times. Quando jogava Canto do Rio x Vasco da Gama, por exemplo, já era problema. Muitas vezes, o Zé se enganou com algumas consoantes e a galera não perdoou: burro! burro! Sua mãe também era sempre lembrada pela torcida do time que sofria um gol anulado pelo juiz, e ele, atrapalhado pelo barulho ensurdecedor das arquibancadas, colocava o tento no placar para o adversário.

Zé Baiano nunca esquentou a cabeça com esses apupos de torcedor fanático e mijão.

O que mais o preocupava, na verdade, ao montar o placar do Maracanã, era quando jogava o Bonsucesso. É esse que não acaba mais, visse?

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