Os homens da Homem

Nem bem a ruiva do sobretudo amarelo e das botas vermelha sai da minha sala, batendo os saltos, dizendo pra quem quiser ouvir que o diretor da Homem, que publica fotos de mulheres peladas, é boiola, corro para a redação da revista Careta, ao lado da minha. Vou pedir ao Tarso, o editor da consagrada publicação, o porrete que ele ‘guarda’ debaixo da mesa para ‘situações desagradáveis’. Um leitor traído pela mulher está a caminho da editora pra me dar um pau, alegando que eu coloquei uma foto da mina dele sem roupa na revista.

(Tarso de Castro, gaúcho, brilhante jornalista, um dos fundadores de O Pasquim, não tinha papas na língua. Não perdoava ninguém. Era justo. Deixou-nos cedo – morreu antes de completar 50 anos. Mulherengo, bonitão, conquistador – namorou, entre outras, a atriz Candice Bergen, uma das mais belas do mundo – só pra situar o leitor que nunca ouviu falar dele. Não saía da minha sala, sempre querendo ver as fotos das mulheres. Bastava entrar alguma modelo/atriz na redação, ele aparecia. Ajoelhava-se aos pés das moças e fazia declarações de amor, sempre bem humoradas. Quando elas achavam graça, ele as convidava para um café na sala dele, anotava os telefones…)

No corredor, trombo com o Tarso. Acabara de ver a perua sair da redação. “Dou toda razão pra guria. Tu és um frouxo mesmo. Como deixou escapar? Por que não me chamou?” Fica bravo de verdade, vira-se e volta pra sala dele. Vou atrás. Conto toda a história, falo do cara que tá chegando pra me pegar, ele ri muito, me empresta o porrete. “Dá uma só, no braço”, ensina, “o cara fica manso na hora”.

Retorno para minha sala, ‘armado’. Peço para minha secretária deixar separado o ‘processo’ da mina do cara, que saiu na ‘Colher de Chá’ – seção da revista que publica fotos de leitoras (ou companheiras de leitores) nuas. Fico no aguardo do cidadão que disse que vai me dar um tiro na boca.

Entra na minha sala, o Everaldo, estagiário, responsável pela seleção das cartas da seção ‘Estórias do Homem’ – o leitor conta suas aventuras amorosas. Essa seção, aliás, foi copiada depois pela revista Ele & Ela, da Bloch Editores, com o nome de ‘Fórum’, que muito sucesso fez na época, início dos anos 1980. Os textos da ‘Forum’ eram cartas editadas/inventadas pelos redatores da publicação; já a ‘Estórias do Homem’, não. Eram cartas verdadeiras, inteiras, apenas com as devidas correções de português.

Toca o telefone. O telefone não para. Minha secretária avisa que é o marido da perua ruiva, que soube por uma amiga dela, que ela tinha ido na Homem. Atendo. O homem tá calmo. Digo a ele que a mulher não vai sair na revista, que só estava um pouco nervosa, com raiva dele por causa do pé na bunda que levou. Ele dá gargalhadas do outro lado, fala que a ruiva já era, que já partiu pra outra. Agradece minha atenção, me convida para um uísque depois do expediente: “Vou levar a prima da garota que eu estou saindo; dezoito anos, meu chapa; diretoria”.

Everaldo me mostra uma carta para a ‘Estórias do Homem’, datilografada (a maioria vem manuscrita, letras péssimas). Título: “Catei a minha sogra no alpendre”.

Telefone outra vez. É do Sindicato das Enfermeiras do Estado de São Paulo. Voz grave de advogado. Todo advogado quando ameaça alguém faz voz grave e fala pausadamente. Diz que vai me processar pela publicação da fotonovela ‘As Enfermeiras’, que aquilo é uma falta de respeito para a classe. Detalhe: fomos os precursores da fotonovela erótica no Brasil, com muito orgulho. Apenas com sexo implícito, bem entendido. Isso é outra história.

‘Catei a minha sogra no alpendre’ trata da estória de um jovem que se apaixona pela sogra, depois de abraçá-la e beijá-la no terraço de sua casa, logo após despedir-se da filha, na sala. Como gosta da namorada, fica com as duas. A mãe sabe da filha e a filha não sabe da mãe. Com o tempo, ele passa a gostar mais da mãe – ‘mais experiente’ -, ameaça terminar com a filha, mas ela, apaixonada, não quer nem saber. Vai chorar as pitangas pra mãe e esta a incentiva a terminar o romance o mais rápido possível ‘com esse moleque cabeludo’. Ele mantém a relação com as duas por uns bons meses. Até se envolver com a nova empregada da casa, mulata, porta-bandeira da escola de samba Camisa Verde e Branca. As duas descobrem…

— Cadê o diretor? Cadê o cafajeste? – ouço um vozeirão na sala grande.

A secretária entra na minha sala pequena, pálida, branca feito cera. Diz que aquele senhor nervoso do telefone está aqui, querendo falar comigo. Ajeito o porrete debaixo da mesa, ao alcance da minha mão. Pra bater no braço dele, uma vez só. Peço pra ela dizer pra ele esperar, tô terminando uma reuniãozinha. Assim ele se acalma um pouco, espero. Eu é que não estou nada confortável.

— Essa história é sensacional, Everaldo! Só uns errinhos de português: ‘haverão outros momentos’ é muito pra cabeça. A carta veio com autorização?

— Tá autorizada! O rapaz da história aí sou eu – sorri, sem-graça.

— O quê?

— Pode publicar?

— Não tô com cabeça pra isso agora. Deixa eu falar com esse babaca. Depois a gente conversa.

Peço para secretária trazer o homem. Confiro se o porrete continua ali mesmo. Ele já entra na minha sala com a mão estendida pra me cumprimentar. Não tem mais de metro e sessenta de altura. Franzino. Careca na parte de cima, cabelos de fios longos, grisalhos, do meio da cabeça pra baixo. Rabo de cavalo. Quarenta? Cinqüenta? Fico de pé, pra impressionar (sou bem mais alto e forte do que ele, hehe!). Estendo-lhe a mão, cumprimento-o com firmeza. Mão gelada, a do anão.

— Muito boa tarde! – diz ele, com voz de locutor de FM, me olhando nos olhos. — Então, o senhor… você é o diretor?

— Pois não! – estufo o peito, acho que não preciso mais do porrete do Tarso; ao mesmo tempo, receio: ou preciso? Pode estar armado esse anão de jardim. Pra quem diz que vai dar um tiro na boca…

— Vamos sentar? – sou educado.

Ele senta-se, todo cheio de pose. Está encantado com a minha sala, com a minha mesa: revistas de mulheres peladas espalhadas, pôsteres de Zilda Mayo, Aldine Muller e Mastilde Mastrangi, entre outras musas da pornochanchada brasileira, nas paredes. Sem contar todas as vinte e oito capas das revistas que fazíamos por mês.

A secretária entra com o ‘dossiê’ e o coloca em cima da mesa, atrapalhando o olho comprido do anão em um par de seios de uma das revistas.

— Vai me dizer que nunca pegou a Zilda Mayo? – entusiasma-se o homenzinho. — Essa mulher é dez, xará!

Abro o envelope. Estou bem mais tranquilo, o cara só pode estar desarmado. Quando uma pessoa diz que vai dar um tiro na boca da outra, não perde tempo com peitos e bundas de revistas, imagino. Dentro do envelope tem mais fotos da mina em questão. Mostro pro anão. Ele pega as fotos, aproxima-as dos olhos, uma a uma, acalma-se de vez: “É, parece que eu me enganei… Se bem que esse retrato que você imprimiu, assim com ela de costas, esse pé sujo, tem a cara da minha mina. Não sei se você me entende. Tem até a marca da vacina, olha pra isso! Pituquinha, essa garota, hein, xará!”.

Quase uma hora depois, nas nuvens, após folhear todas as revistas, tomar um copo d’água e três cafés, o anão se toca. Diz que está na hora dele, que vai se reconciliar com a mina. Acompanho-o até a saída. Ele coloca a mãozinha gelada no meu ombro, fala baixo dessa vez, íntimo:

— Diz aí, xará, e a Aldine? E essa mulherada toda pelada? Cê dá conta do recado?

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