Os malas

— Só mais uma coisa. Presta atenção! Cuidado, muito cuidado com as malas. Fiquem espertos!

O jovem casal nunca havia viajado. Ouviram, atentos, aos conselhos do pai da noiva, que os presenteou com a viagem para a Europa. Lua de mel. Europa!

Os noivos saem de Piracicaba e voam direto para Paris. Cuidado, muito cuidado com as malas. Fiquem espertos!

No avião, fazem amizade com outro casal, pouco mais velho, que, coincidência, havia comprado o mesmo pacote de viagem. E ficariam hospedados no mesmo hotel. Casal de mineiros, Belo Horizonte, a terceira vez que visitam o Velho Mundo.

Paris. Aeroporto Charles De Gaulle. O noivo não deixou ninguém tocar nas suas malas. Muito menos o solícito motorista do táxi que os levou para o hotel.

— Pode deixar que eu mesmo coloco no porta-malas, tenquiu-véri-match.

Chegam ao hotel. O camareiro os recebe.

— Onde é que o senhor pensa que vai com essas malas, ô, da gravatinha?

A noiva fica vermelha, o casal amigo não sabe onde enfiar a cara.

— Pode ir tirando essa mão cheia de dedos daí!

— Hotel na Europa e em qualquer lugar do mundo é assim, já viajamos muitas vezes – ensina o marido do casal amigo, desculpando-se com o camareiro, em francês.

— Mas comigo não tem disso não. Mala minha, seguro eu. Seguro morreu de velho, meu amigo!

Os dois casais fazem o check-in, pegam as chaves dos quartos. O camareiro da gravatinha sobe antes com as malas do casal amigo. Um homem de terno azul-marinho, ali no saguão, aproxima-se. Entra no elevador com os quatro mais as malas dos dois. Sobem, apertados.

— Todas as vezes que viemos a Paris, ficamos neste hotel – conta a esposa do casal amigo. — É meio antigão, mas muito bom, arrumadinho, bem localizado. Vocês vão adorar.

— Esse elevador guenta nóis, amor?

— Dá um tempo, xuxu!

— Quem é esse cara de terno? Tá muito sorridente pro meu gosto. Isso aí, pra mim… E fica me olhando…

— Para com isso, xu! Não me mata de vergonha!

— Ele não tá entendendo nada do que eu tô falando. Olha a cara dele. Fica na sua, amor… Boneca! Bichaloca!

— Deve ser um hóspede como qualquer outro, xu. Mania de implicar.

— Não tô aguentando esse risinho de quero-segurar-sua-mala-senhor. Só que não é essa mala que vocês estão pensando, não, tão me entendendo? Isso aí ou é viado ou é ladrão. Dizem que tem muito travesti em Paris. Daqui a pouco dou uma bimba na oreia desse boiola e acabo com essa frescura.

— Ai, que vergonha, xu!

Descem no andar. Pegam as malas. O casal amigo desaparece no primeiro quarto do corredor. O homem do terno azul-marinho vai atrás do jovem casal. Eles apressam o passo arrastando as malas. O do terno os acompanha. Andam mais depressa ainda. O do terno faz o mesmo. Abrem a porta do quarto, entram rapidamente, batem a porta na cara do homem.

— Ufa! Ainda bem que papai alertou a gente, né, xuxu? Você tem toda razão. Esse aí é ladrão de malas disfarçado de hóspede. Profissional. Viu como ele estava de olho na nossa bagagem? Já pensou? Europa é fogo! A gente devia ter ido mesmo pra Foz do Iguaçu, te pedi tanto… Estrangeiro nunca mais. Néver-mór!

— Amanhã eu dou parte pro gerente, amor.

No dia seguinte…

— Hotelzinho de merda. Como é que alguém consegue tomar banho com um chuveirinho desse? Não tem chuveirão nesta espelunca? Ducha? Ou ensaboa ou enxágua. Isso aí lá em Piracicaba é pra lavar as partes depois do número dois, é ou não é? E olhe lá! Paris…

O jovem casal desce para a recepção. O casal amigo já os aguarda para o city-tour.

— Espera um pouco que eu vou falar com o gerente.

— Pega leve, xu… Olha só quem está na recepção!

A esposa do casal amigo aproxima-se da noiva. Cochicha.

— O próprio. O cara do elevador de ontem à noite. Conversamos com ele antes de vocês descerem. Uma simpatia! É o gerente do hotel. Fala português. Sotaque mineiro, cê acredita?

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