Pegando no pé

Ele conquistou a garota mais bonita da escola, deixou os amigos mortos de inveja. Engatou namoro, a convidou para descer para o litoral, afim de conferir toda a formosura da cobiçada jovem morena dos cabelos cacheados olhos verdes corpo escultural e coisa e tal. Mas, como amor de praia não sobe serra, não seria ele quem iria desdizer o dito popular. Tudo por um detalhe aparentemente besta, que lhe marcou para o resto da vida: os pés da jovem. Foram pro crime, claro, foi pra isso que a levou pra Mongaguá. Tudo ia maravilhosamente bem até ela tirar o tênis e a meia de cano baixo. Não, não era o chulé, isso ele até curtia. Aquilo ali era pé de lateral-direito, contou depois para os chegados, que não acreditaram que ele tinha dado um pé naquela bunda. Lateral-direito…

Foi a partir desse fugaz romance que a ficha caiu pra ele: os pés eram fundamentais. Começou a prestar mais atenção em todas as mulheres de sandálias que passavam por ele, onde quer que fosse. Em pouco tempo, sabia decor e salteado os pés das conhecidas, das parentes, das amigas. Fulana de tal? Ele meio que fechava os olhos, puxava pela memória, e acendia o tal pé na cabeça: fulana tem um pezinho que eu vou te contar uma coisa pra você… Ou, simples assim: um cu!

Notou, sem muito esforço, que sandálias havaianas são as que melhor vestem pés femininos. Buzinava na orelha dos amigos: todo pé de muié cai como uma luva numa havaiana, é ou não é? Passou a se ligar no esmalte usado pela mulherada, as tendências e as cores das estações. Adorou quando surgiu a moda das unhas pintadas com florzinhas e outros efeitos artísticos. A tal da ‘francesinha’, então, foi o máximo. Francesinha é quando a unha é pintada com esmalte incolor e a manicure dá um tom mais escuro na ponta, um fio, fazendo de conta que a unha está mais comprida. Mulher de francesinha, ele ia atrás. Fácil.

Ficou mesmo enlouquecido por pés. Agora, além das de sandálias, começou a olhar, com a mesma volúpia, para as que usavam esses sapatinhos fechados, tipo sapatilhas, tão em moda. Só porque alguns modelos deixam aparecer os vãos dos dedos. E, para ele, nada mais sensual do que vão de dedos, que instiga a sua imaginação.

Certa vez, ele conheceu uma mulher pela internet. Ao invés de pedir foto de maiô, como fazem os cafajestes de plantão, quis uma dos pés. Ela achou aquilo uma maluquice, mas mesmo assim fez uma e anexou pra ele, morrendo de vergonha, dizendo que tinha pés de pato e que ele era um louco, um tarado. Ele bateu os olhos na foto e achou os pés dela a coisa mais linda do mundo. Foi aí que se deu conta que a fissura dele estava mais concentrada nos dedos e nas unhas, do que no resto do pé. E aquele retrato tinha os dedos certinhos, com o dedão maior que o dedo do lado e o do lado maior que o outro e assim numa escadinha até o dedinho. Nem se tocou com o formato pé de pato da outra. O importante era mesmo as extremidades. Ele se encantou com a unha quadradinha do dedão do pé da mina. Depois é que rolou foto de rosto, de corpo inteiro, de biquíni, com amiga na praia… Depois é que eles ficaram pra valer. Ela pegou ele pelo pé. Ou vice-versa?

Mesmo assim, ele continuava ligado. Se via mulher com o segundo dedo do pé maior que o dedão, nem olhava para o resto, não lhe interessava. Lembrava que ouviu alguém dizer que mulher que tem o segundo dedo maior que o dedão, manda no homem. Então, ele passava batido por elas; além do quê, achava horrível. Pra ele, o dedão tem que ser maior que o resto e não se fala mais nisso.

Nessas de ficar olhando para todos os pés que apareciam no seu caminho, descobriu os sapatos femininos com a parte da frente cortados, deixando para fora apenas a ponta de dois ou três dedos. Sempre achou péssimo esse estilo de sapato metido à sandália ou sandália metida à sapato. Não mostra os pés nem os dedos nem os vãos nem nada, só empata. A maioria deles ostenta uma fivela imitando laço, que fica justamente no lugar que é para aparecer o que mais interessa, o restante dos dedos.

Não acreditava nesse tipo de calçado. Nesse tipo de calçado e nesses dedos saindo pra fora, coisa horrorosa que revela coisa nenhuma. Isso o deixou bem puto. Viajou. Será que quando essas mulheres chegam em casa e tiram os sapatos, as pontas desses dois dedos estão sujas de rua e os pés, propriamente ditos, limpos? Será que no verão ficam diferentes do restante dos pés? Pés brancos e as pontas dos dedos bronzeados? Será que elas passam protetor solar bem ali? Qual fator? E quando chove?

Os de saltos mais altos para mulheres magras, pés finos, por exemplo, abominava. Os dedos saem muito pra fora, encostam no chão, ficam imundos. Devem criar bolhas, pequenos calos, unhas sujas e quebradiças. Sem contar os pisões… Joanetes? Melhor nem pensar.

Um dia, viu no metrô uma mulher com um sapato desses de ponta cortada, só que todo furadinho. Bege. Nunca vira um igual. Furos de mais ou menos meio centímetro espalhados por todo o calçado. Até que não era feio. Será que os pés dela são marcados de bolinhas?

Dia dos Namorados. Deu de presente pra moça do dedão da unha quadradinha um sapato com a ponta cortada e todo furadinho. Azul. Queria passar essa história a limpo. Queria ver ao vivo como é que ia ficar o pé da mulher amada, que ele tanto adorava, depois de um tempo de uso.

Discutem a relação até hoje.

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