Perfídia

Perfídia não era bonito, tampouco feio. Nem alto nem baixo. Henrique, o nome dele. Ganhou esse apelido porque vivia cantarolando, com sua voz grave de cantor de boleros, o hit internacional do momento: ‘Perfídia’.

Perfídia era elegante. Camisa volta ao mundo pra dentro da calça bem passada, com vinco, sapatos sempre engraxados combinando com o cinto. Perfumado, exalava Lancaster. Usava brilhantina nos cabelos, repartidos do lado: formava um topete que cobria toda a fronte. O topete começava no alto da testa, onde se iniciava a risca do repartido, vindo até a sobrancelha, do lado oposto. Era uma franja simetricamente comportada, virada para o lado. Fazia sucesso entre as meninas do colégio e da cidade, o cabelo do Perfídia. E ai de quem encostasse um dedo naquele topete.

Perfídia não jogava bola, só pra não se despentear. Piscina do clube? Nem pensar! Não sei nadar, desculpava-se. Andava sempre com o pescoço duro. Quando tinha que abaixar-se pra pegar alguma coisa, fazia-o com a cabeça pra cima, pra não prejudicar o penteado. Orgulhava-se de suas melenas. Gabava-se: ‘Cabelo ruim é quem nem bandido: ou tá armado ou tá preso; se eu não cuidar, quem há de?’ Nunca ninguém viu a testa do Perfídia.

Nos bailinhos de sua época de juventude, um dos grandes momentos era justamente quando a orquestra tocava ‘Perfídia’, sucesso do Trio Los Panchos. Bolerão perfeito pra se dançar de rosto colado. Era tida como a canção dos apaixonados. O salão ficava cheio. O primeiro a entrar na pista, só podia ser ele.

Perfídia tinha manias e frases prontas, nunca dançava com mulher feia: ‘Mulher feia é que nem pantufa, dentro de casa é até gostoso, mas pra sair na rua dá uma vergonha…’ ou ‘Quando alguém me vir agarrado com mulher feia, pode chamar o segurança que é briga’.

Ele gostava mais de dançar com as meninas das cidades vizinhas, que sempre vinham para os bailes. Agarrava a parceira pela cintura, entrelaçava sua mão esquerda com a direita dela, segurando-a para baixo, com o braço esticado. Fechava os olhos e deixava a música rolar. As vezes, desgrudava-se da dama, olhava bem nos olhos dela e soltava a pérola: ‘Você não acha que eu sou a cara do Alain Delon?’. Dizia isso pra todas. E o pior é que se achava mesmo. Quando terminava, Perfídia saía todo contorcido do salão, tamanho ‘envolvimento’ com a melodia de sua preferência.

Perfídia nunca namorava. Casamento? Jamais! ‘Casamento é igual piscina gelada, depois que o primeiro tonto entra, fica falando pros outros: pula que a água tá boa!’.

Perfídia e sua turma passavam as tardes na pracinha perto da escola. Estudavam de manhã, voltavam para casa pra almoçar e iam para a praça conversar sobre futebol e mulher. Todos os dias, meses, anos. Até que um dia surgiu a novidade: uma família do Paraná mudara-se para o sobrado da esquina da pracinha. Pai, careca, com cara de bravo; mãe, vistosona, com cara de boazinha; menino, magricela, uns 10 anos, com cara de pentelho; e uma adolescente, bonitinha, loirinha, branquinha, com cara de boneca.

Perfídia e sua turma ficaram encantados com a menina-moça. Agora é que não saíam mais da pracinha. A aposta era quem iria catar o brotinho, que não dava a menor pelota para eles. Ignorava-os por completo.

Baile de aniversário da cidade, um dos mais concorridos de todos, só perdia para o de Debutantes. O Três do Rio, conjunto musical que era o coqueluche do momento, no interior, atacou de ‘Perfídia’. Perfídia não vacilou: ajeitou com todo cuidado sua franja, abotoou o paletó, e foi lá tirar a bonitinha pra dançar. Era o primeiro baile da loirinha na cidade. Na mesa dela, pais, avós, tios, primos e primas. Na dele, a turma, morrendo de inveja: ‘Nós somo uns bando de cagão; ficamo aqui vacilano e esse Perfídia de merda vai ganhar o broto, olha lá’, disse o metido a galã da turma, que sempre perdia as oportunidades para o Perfídia.

Perfídia aproxima-se, faz cara de romântico, coloca a mão esquerda para trás, estica a direita em direção a ela: ‘Vamos dançar?’ Todos da mesa olham pra ele. Pra ela. ‘NÃO!’ As mesas ficavam em um plano mais alto em relação à pista de dança. Perfídia dá um sorriso amarelo, pisa em falso no degrau e cai no salão, equilibrando a cabeça pra não desmanchar o penteado. A branquinha fica vermelha de vergonha. Os amigos morrem de rir: ‘Sifu!’.

Perfídia não se conforma com o primeira ‘tábua’ que leva em sua vida. Justo ele, o Alain Delon. Vai direto para o bar encher a cara de cuba-libre. Terminado o baile, convoca os amigos e vão para a pracinha. Meio embriagado, gravata afrouxada, botão de cima da camisa aberto, mas com o topede impecável, ordena: ‘Vamos fazer uma serenata!’. Alta madrugada. A família da loirinha acabara de chegar. Esperam as luzes da casa se apagar. Aproximam-se debaixo da janela, que imaginam ser o quarto da boneca. Perfídia solta a voz grave, e manda um ‘Carinhoso’:

Meu coração, não sei por quê

Bate feliz quando te vê

E os meus olhos ficam sorrindo

E pelas ruas vão te seguindo,

Mas mesmo assim foges de mim.

Ah se tu soubesses

Como sou tão carinhoso

E o muito, muito que te quero.

E como é sincero o meu amor,

Eu sei que tu não fugirias mais de mim.

Nada. A bonitinha não abriu a janela para agradecer nem piscou a luz do quarto, dando sinal que ouvira e gostara. Essa música nunca falhou nas serenatas do Perfídia e sua turma. Ele fala baixo para os companheiros: ‘Quero ver agora se ela vai me dar tábua outra vez’. E manda:

Mujer…

Si puedes tu con Dios hablar

Preguntale si yo alguna vez

Te he dejado de adorar…

A luz do quarto é acesa. Perfídia dá uma piscada para a turma. Continua cantando.

Te he buscado por do’quiera que yo voy

Y no te puedo hayar

Para que quiero otros besos

Si tus labios no me quieren ya besar

O pai careca da loirinha bonitinha branquinha abre a janela, com cara de mais bravo ainda, manda todos praquele lugar, e joga um balde de água fria em cima dos seresteiros.

Perfídia e seus companheiros saem correndo dali. Furioso, ele fala grosso para os amigos: ‘Cato esse brotinho no próximo baile, escreve aí’.

Algum tempo depois, no Baile de Debutantes, onde a loirinha é uma delas, Perfídia não aparece e já vai começar a segunda valsa, a que a debutante escolhe seu par. Os amigos estão apreensíveis: ‘Vai ver ele está preso no quartel’, brinca o metido a galã da turma, que nunca catou ninguém. É que no dia anterior, Perfídia apresentara-se ao exército, para prestar o serviço militar.

De repente, Perfídia surge no baile. A turma não o reconhece. Quando percebem que é ele, apontam o dedo pra sua cara e caem na gargalhada, de chamar a atenção das mesas ao lado. ‘Tão rindo do quê?’

Perfídia não conseguiu dispensa do exército. Cortaram o cabelo dele à la reco. Adeus topete. No lugar, uma fronte branca, pele que nunca viu a luz do sol, demarcada pelo contorno do ex-cabelo. E uma pinta bem grande, no meio da testa.

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