Primeira Comunhão

Estou de terno de calças curtas, azul-marinho. Camisa, gravata borboleta, lencinho na lapela e fita pregada na manga esquerda do paletó, tudo branco. A fita começa com um laço enorme no ombro e desce até o cotovelo, como se fosse uma gravata, com franjas na extremidade. Nessa fita, desenho de um anjo, dourado.

Luvas igualmente brancas. Mãos, postas, segura, ao mesmo tempo, um livrinho de capas duras, plastificado, que contém um terço no buraquinho dentro da contracapa, e uma vela imensa, bem fina, toda trabalhada. Apagada. Cabelos bem curtinhos, o topete, pro lado, penteado com brilhantina. Olhar para nada com cara de quem não está entendendo nada. Narigudo. O que poderia estar pensando, sentado ali naquele banquinho?

Estou enquadrado em uma moldura de 20 x 20 centímetros, mais ou menos, cercado por um paspatur branco-amarelado, de uns 5 centímetros. O retrato em branco e preto deve ter uns 8 X 11. Até que ficou um quadrinho bonitinho. É o registro da minha primeira comunhão, de quando eu tinha 6 anos de idade.

Procuro um lugar em casa para pregar a lembrança. O prego teima em não entrar na parede dura do corredor. Meu filho caçula, Leo, 6 anos (na época), está do meu lado, querendo fazer alguma coisa, ajudar. Fica encarregado da reposição dos preguinhos e de achar os entortados no chão.

Descobri esse quadrinho outro dia, dentro de uma caixa empoeirada, com recuerdos da minha infância, lá em cima do armário. Essas coisas que a gente sabe que está lá e não está nem aí. Passa a vida sem mexer nelas. É preciso uma escada para remoer o passado.

Leo faz Teatro na escola. Acaba de experimentar o figurino do personagem dele, um detetive – paletó azul-marinho (da mãe), camisa e gravata brancas (do pai), luvas brancas (dele), óculos escuros e chapéu (do avô) -, para o ensaio-geral da peça, amanhã de manhã. Diz que vai com gel (brilhantina) no cabelo, penteado para o lado.

Finalmente consigo pregar a lembrança na parede já toda esburacada. Leo quer mais. Nessa parede não dá, filho. Saio para guardar a caixa de ferramentas, ele permanece parado na frente do quadrinho. Olha fixamente para a foto de recordação da minha primeira comunhão, com cara de quem está entendendo tudo.

– De que teatro é esse aí, pai?

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