Que mentira que lorota boa

Toda cidade do interior de qualquer parte do mundo tem seus personagens populares, o louco, o gênio, o maltrapilho querido por todos, o fofoqueiro, etc. E o contador de histórias.

Já dizia Leon Tolstoi, se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. A minha cidade não é diferente. Teve o Seu Naves, o maior contador de lorotas de todos os tempos. Quando ele aparecia no boteco para tomar seu trago de cada dia, as pessoas sentavam à sua volta para ouvir suas bazófias.

A mais famosa, a que ele vivia repetindo, e a distinta plateia permanecia em silêncio absoluto para ouvi-la pela milionésima vez, era a da mulher rendeira. Ele relatava que um dia andava a cavalo pelo pasto da sua fazenda quando ouviu olê muié rendera, olê muié rendá; olê muié rendera, olê muié rendá. Silêncio. Olê muié rendera, olê muié rendá; olê muié rendera, olê muié rendá. Fiquei invocado com aquilo, dei uma olhada pra debaixo da árvore que vinha a melodia e não vi nenhuma eletrola, contava. Silêncio. Olê muié rendera, olê muié rendá; olê muié rendera, olê muié rendá. Fiquei mais encafifado, cheguei perto da árvore, era um disco quebrado no chão, debaixo de um galho seco cheio de espinhos; quando o vento batia, o espinho raspava no caco do disco e tocava a musiquinha. Olê muié rendera, olê muié rendá; olê muié rendera, olê muié rendá.

A sede da fazenda do Seu Naves ficava em um vale entre dois morros bem altos. Um belo dia, estava ele no seu velho caminhão no cume de um dos morros, quando faltou o freio. Não se desesperou. Desliguei o motor e soltei o bichão, ele desceu o morro na banguela, subiu no morro da frente, perdeu força, voltou de fasto e escalou de marcha-a-ré o primeiro morro, desceu de novo, pra cima e pra baixo, até acabar o embalo e parar certinho bem na porta da minha casa.

(Ele gostava de velocidade. Comprou um mustang cor de sangue e foi para a rodovia testar a máquina. Estava numa velocidade estonteante quando deu pane no carrão, apagou todo o painel e ele percebeu que estava sem freio. Tava a quantos por hora, Seu Naves? Era muita coisa. Mas quanto? Nem deu pra ver, só sei que eu tava chupando um picolé, coloquei o palitinho pra fora e fez prrrrrrrrrrr nos postes.)

Seu Naves tinha dois cães de caça na fazenda, perdigueiros. Sempre que aparecia raposa no galinheiro, ele soltava os cachorros. Acontece que eles corriam atrás dela, ficavam cansados e a matreira escapava. No outro dia, a mesma coisa. Aí, eu tive a ideia, amarrei um cachorro nas costas do outro e fiquei esperando a espertalhona aparecer; quando ela botou o focinho na porta do galinheiro, eu larguei os dois; enquanto um corria, o outro descansava com as perninhas pra cima; quando o primeiro arriava, era só inverter. Cadê de aparecer raposa no meu galinheiro agora?

Teve um dia que um dos cães cercou um coelho. Ficou paralisado, naquela posição clássica de perdigueiro: o rabo reto para trás e uma pata levantada, pronta para começar a correr e dar o bote caso a presa tentasse escapulir. Esse cachorro sumiu, não voltou mais para casa, deixando o Seu Naves muito chateado. Vai ver alguma cobra pegou ele, lamentava. Muitos anos depois, andando pelos cafundós da fazenda, encontrei o esqueleto do cachorro em posição de ataque cercando o esqueleto de um coelho.

O outro perdigueiro ficou cada vez mais fiel, ele propalava. Quando saíam pra caçar, o cachorro ficava todo eriçado quando tinha perdiz por perto. Esse cão também morreu, bem velho, e o dono fez um embornal com o couro dele. Toda vez que eu passava perto de uma perdiz, o embornal se arrepiava.

Certa tarde, ele estava numa caverna quando apareceu a onça e encurralou ele. Ficou acuado, sem saída, não tinha como escapar. Nunca tive tanto medo na vida, me borrei todo. E aí, Seu Naves, o que o senhor fez? Nada, tava entocado. Mas e aí? Aí a onça me comeu, ué!

Comments are closed.