Questão de segurança

— AÊ, GOSTOSA!
Essa bandeirinha é interessante mesmo, não havia reparado. E esse torcedor gritando, puta mala. Agora tá na moda mulher trabalhar de bandeirinha nos jogos de futebol. Mais do que na hora de tirar esse machismo de dentro dos estádios. Aquele policial ali na beira do gramado, pertinho dela, não olha pro campo. Será que vai disfarçar na hora que sair um gol e dar uma olhada de rabo de olho? Mas aí não tem replay. São Paulo e Linense em pleno Morumbi quase vazio. Também, com esse tempo. O torcedor berrando na minha orelha, o estádio inteiro ouve ele. Só dá ele! E eu aqui no meio dessa meia dúzia de gatos pingados da torcida reservada para os visitantes, atrás do gol, arquibancada descoberta, podendo estar lá mais pro meio, na coberta.
— BANDEIRINHA! Ô, BANDEIRA! OLHA PRA MIM!
Vai cair o maior pé d’água daqui a pouco. Tudo vazio. Pra quê esse aparato todo? O policial nessa posição de descansar, de lado para o gramado, de olho na torcida, na arquibancada vazia, segurando esse escudo gigante, quase do tamanho dele. Olha o cassetete! Se correr com isso pendurado na cintura, a coisa pode bater no chão, ele levar o maior tombo, o escudo cair em cima dele, vai ser uma merda. Tem o quê, dois metros esse cassetete? Precisava tanto?
— BANDEIRINHA! LINDA! SOLTA ESSE CABELO AÊ PRA MIM VÊ!
Será que a torcida vai pular lá embaixo, invadir o campo, bater no juiz, agarrar a bandeirinha? Sair no tapa com a outra meia dúzia da torcida inimiga? Que escudo é esse? Proteção contra pedradas, pilhadas, sapatadas, tiro de canhão. Só pode ser. Deve ser pesado essa porra. Será que o policial é corintiano e tá torcendo pro Linense? Nem pisca. Vida dura essa de segurança em campo de futebol. Vai no jogo e não vê o jogo. E ainda corre o risco de tomar umas pauladas das torcidas organizadas. Às vezes vai pra casa sem saber o resultado pra contar pra patroa e pros filhos menores que ainda não têm idade pra ir em estádio, mas não veem a hora.
— Ô, BANDEIRINHA! TÁ ME OUVINDO? TU É A NORA QUE MAMÃE PEDIU A DEUS!
Também não precisavam colocar essas cordas grossas, ridículas, separando nada de coisa alguma; isolando o quê? Tudo vazio do lado de lá. Se pelo menos fosse jogo do Timão… E o da segurança nem pisca. Olho pra ele e ele me ignora, como se não tivesse ninguém aqui na direção dele. Parece uma estátua. Olhar perdido. O que será que ele tá pensando? Expressão mais ausente. Treinamento. Só pode. Deve ser treinado pra isso: olhar fixo pro nada, pra transmitir sensação de segurança.
— COXUDA! CASA COMIGO!
O cara nem se mexe. O que será que ele vai dizer em casa depois do jogo? Ou será que ele já vem pro estádio puto da vida, sabendo dessa obrigação toda de ficar de perfil pro espetáculo, não podendo nem piscar direito? Será que pode trabalhar resfriado? Espirrar? Não, um segurança não espirra! Tem cara de gente boa. Bem acima do peso. Qual é a dúvida agora, juiz? Esse filhodaputa tá apitando pros bambi. Espera lá, essa bola saiu, juiz. É do Linense!
— MASCULINO BOLA, BANDEIRA!
Será que ele não se cansa de ficar nessa posição de descanso segurando esse escudo-protetor gigante? E esse capacete ridículo que ele é obrigado a usar, quase que tapando completamente sua visão, com essa coisinha debaixo do queixo pro capacete não cair? Isso deve incomodar, coçar. Deve estar morrendo de curiosidade de ver um pouquinho do jogo pra depois ter o que contar em casa. Sangue bom, o segurança. Ainda não vi ele piscar uma vez. Nem olhar com o rabo dos olhos pras pernas da bandeira de rabo-de-cavalo ele se atreve. O que o superior não vai dizer depois na corporação? Ichi, gol dos bambi. Nem vi direito. Parece que o baixinho tava impedido.
— TÁ CEGA, SUA VACA?
Não acredito que o policial nem se tocou com o gol dos cara, com a comemoração da torcida. Vai conversar o quê no bar com os amigos? Vai dizer não, não vi? Mas você estava no campo! Intervalo. 1 a 0 pros bambi com gol impedido daquele anão. No segundo tempo, a gente vira. Vai, Linense!
— QUER UM HOT DOG, MY LOVE?
O cara não se mexeu um minuto! Passou o intervalo inteiro na mesma posição! Vai ter cãibra à noite, só pode. Ciático, coitado. Ficar assim pega no ciático. Será que não tem vontade de mijar, comer um sanduíche, conversar com os companheiros, pelo menos pra comentar sobre a bandeirinha das pernas grossas, já que o jogo tá uma bosta?
— AÊ, BANDEIRA! VÊ SE FICA ESPERTA! DESSE JEITO NÃO TEM CASAMENTO!
Não, o da segurança não tem cara desses que chega em casa contando vantagens, que fez e aconteceu nas arquibancadas. Trabalhador. Tem família, filho pra criar. Deve chegar em casa, tomar seu banho quente e ficar de olho nos programas de esporte da tevê, comendo um sandubão, pra ver se ele aparece e chamar a família pra assistir. De costas! Ô, vida! Gol! Gol do Linense! Gol do Linense! Chupa, bambi! O quê? O juiz anulou? Anulou! Deu impedimento do Fausto! Essa bandeirinha tá louca! O cara tava pelo menos um metro pra trás! O da segurança não se mexe nem olha pro lado. Só ajeitou o cassetete. Essa bandeirinha tá de brincadeira.
— BANDEIRINHA! Ô, BANDEIRA! QUER SABER? SAIR NA PLAYBOY NEM MORTA! TU TEM ESTRIA, TÁ LIGADA? ESTRIA!
Pelo menos o torcedor tem senso de humor. O da segurança nem aí. A bandeirinha ouviu! Olhou pra trás com cara de brava, indignada. Pô, o cara pegou pesado. Pra mim chega! Deixa eu ir embora. Antes que esse toró me prenda por aqui.

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