Questão de vaidade

Virou moda treinador e jogador de futebol sair de campo, ainda no intervalo, reclamando da arbitragem, falando mal do juiz e dos bandeirinhas para os repórteres, principalmente da televisão. A imprensa também desce o pau nos pobres coitados do apito, que têm que decidir uma jogada polêmica em fração de segundos. De vez em quando pela tevê, com lances duvidosos repetidos milhares de vezes, não se consegue chegar à conclusão se foi um pênalti ou não, por exemplo.

Lembrei-me de um espetáculo do meu glorioso Clube Atlético Linense (CAL), o Elefante da Noroeste, na Rua Javari, Estádio Conde Rodolfo Crespi, decisão da Copa Paulista de 2007. Juventus e Linense disputavam o enorme e cobiçado troféu da Federação numa linda manhã de céu azul e temperatura amena em São Paulo.

Bastava um empate para o CAL ser o campeão. Aos 17 minutos do primeiro tempo o time de Lins faz um a zero, gol validado pelo juiz e anulado pela bandeirinha (mulher) que marcou impedimento. Bem na frente dos fanáticos torcedores da cidade do interior.

(Tenho uma amiga que adora ver jogo no campo e não se cansa de repetir que homem em estádio de futebol é tudo covarde-machista. Concordo.)

A galera não se conteve.

— Bandeirinha filha de uma puta!

— Vai trabalhar na zona, sua cega!

— Biscate!

A bandeirinha, loira, cabelos presos num rabo de cavalo entrelaçado, corpo bem feito, cintura fina, shorts apertados realçando as roliças pernas e arrebitando ainda mais a bunda, nem aí com os xingamentos.

Qualquer lance que a jovem levantava o seu instrumento de trabalho, ecoavam os mesmos baixíssimos calões da torcida do Elefante. Ainda mais agora que o Juventus fizera um gol. A moça continuava impávida, como se não fosse com ela toda a baixaria reinante.

No segundo tempo, com a turma mais calma depois de o Linense ter empatado a partida, silêncio na arena, um torcedor aproximou-se do alambrado, que fica a menos de dois metros da linha lateral do tapete verde, onde desfilava a bandeirinha, e gritou quase na orelha dela:

— Bandeirinha? Oi, bandeirinha!

Ela movimentou a cabeça bem devagar, ficou de perfil para a arquibancada, e tornou a prestar atenção na peleja.

— Bandeirinha? Sabe de uma coisa?

Virou o rosto de lado novamente, desta vez olhando com o rabo dos olhos procurando o dono daquela voz rouca que já chamava a atenção da distinta plateia.

— Você não é a Ana Paula Oliveira!

(Para quem não sabe, Ana Paula Oliveira foi a primeira bandeirinha de futebol do Brasil, tornou-se celebridade nacional quando posou sem uniforme para a revista Playboy da edição de julho daquele ano. Depois do nu artístico, sumiu.)

A bela sentiu-se incomodada, não sabia se olhava para os espectadores ou para os jogadores.

— Bandeirinha? Você nunca vai sair na Playboy, tá ligada? Você tem estria! ES-TRI-A!

Ela virou-se furiosa para o público, dando as costas para o jogo que corria solto. Aquele canto do pequeno estádio da Mooca explodiu como se fosse um gol.

Pode isso, Arnaldo?

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