Remédio para quê?

Ela sempre foi muito vaidosa. Vale registrar que ganhou o concurso de Miss Terceira Idade, do clube que frequenta na cidade. Coroada, desfilou na passarela com ramalhete nas mãos trêmulas, sob chuva de confetes, com direito a tchauzinho para a distinta plateia.

O jantar comemorativo das Bodas de Ouro, com os três filhos – duas mulheres e um homem, todos casados, com filhos – e os parentes e amigos mais chegados, não foi tão divertido como imaginara. Só porque o marido nada comentou quando ela estreou o pretinho básico para a ocasião, presente da filha do meio. Apenas olhou.

— Eu sei que estou gorda, não precisa ficar aí com essa cara.

— Mas…

— Não tem mas, nem menos!

Ela passou a noite de cara fechada, o tempo todo na cozinha, com a desculpa de fiscalizar se estava tudo em ordem.

Resolveu fazer regime por conta do ‘olhar’ do marido. Procurou o melhor médico da cidade e foi lá conversar. Não contou para ninguém da família.

Além de vaidosa, ciumenta. Certa vez, encontrou no bolso do paletó do marido um papel com o nome de uma mulher e um número de telefone. Passou uma semana brigada com ele, dormindo em quartos separados, até se lembrar que fora ela mesma que colocara o papel, com a sua letra, e que a tal mulher era uma velha amiga do clube.

Os ciúmes só aumentaram depois que começou o regime. Coitado do marido. Ela implicava com a roupa que ele vestia: “Camisa aberta no peito pra quê?”, com o asseio: “Fazendo barba todo dia pra amante te fazer carinho, é? E esse perfume fedorento?”, até com o comportamento: “Você anda muito risonho ultimamente…”

Os filhos, acostumados com as cenas, achavam que estava tudo normal. Até que o pai ligou para a casa da mais velha, duas da madrugada:

— Não aguento mais a sua mãe, filha! Ela está completamente louca!

A filha tentou acalmá-lo dizendo que a vida toda ela foi desse jeito. E desligou logo, porque estava morta de sono, e ainda tinha que acordar bem cedo no dia seguinte para viajar com a mãe para Minas Gerais.

Nas duas horas que durou a viagem, ela ficou fuçando no celular que pegara do marido para descobrir “o nome dessa sirigaita que é amante do seu pai, aquele desgraçado”.

— Não acredito que a senhora pegou o celular do papai escondido, mãe!

— Seu pai tem uma amante e fala com ela pela televisão, minha filha. Tenho certeza!

— Pela televisão, mãe? A senhora bebeu?

— Televisão, sim senhora! Deve ter um jeito dele se comunicar com a sirigaita pela televisão, que eu ainda vou descobrir. Essas modernidades que tem por aí…

A filha mais velha voltou da viagem e falou para o pai e os irmãos que havia alguma coisa errada no comportamento da mãe e que ela precisava ser tratada. Não disse o quê.

O pai tinha um escritório de informática com as duas filhas e o filho. À noite, voltava direto para casa e, se saísse, era com a mulher; portanto, não tinha tempo livre para arranjar uma amante.

O ciúme só crescia.

Ela comprou gravadores pequenos, desses que gravam horas e horas, para ‘descobrir tudo’. Pediu para a filha do meio colocar os aparelhinhos escondidos nos lugares que o pai mais ficava durante o dia: na mesa do escritório, no banheiro, no carro. A filha do meio não contou nada para os irmãos. No final do dia, recolhia os gravadores e os entregava para a mãe, que passava no escritório para pegá-los.

A paranoia aumentava. O marido estava ficando louco, não dormia direito, tinha olheiras, vivia sem apetite. Os filhos convenceram a mãe ciumenta a procurar um psiquiatra. Ela não quis ir de jeito nenhum, no entanto, quando disseram que era importante ela estar bem calma para quando ‘encontrasse com a amante’, ela cedeu.

Depois da consulta, o psiquiatra ligou para a família e pediu para que alguém fosse lá conversar com ele. A filha do meio foi, porque achava que a desconfiança da mãe poderia ser verdadeira e até dava razão para ela. Voltou para o escritório, chamou a irmã mais velha e o irmão caçula para a sala do pai.

— O psiquiatra disse que a mamãe está tendo pensamentos deliróides, provavelmente, devido a um dos componentes do remédio que está tomando para emagrecer. Mamãe está fazendo regime…

— Regime??? – os três, em uníssono.

— … e que vai ter que tomar remédio ou seu estado vai piorar.

Só quando a filha do meio foi pegar os gravadores para passar para a mãe, como vinha fazendo nos últimos dias, é que percebeu a burrada: toda a conversa fora gravada. E ninguém sabia da existência dos gravadores no escritório. E a mãe já estava chegando.

O pai, a filha mais velha e o caçula nem tiveram tempo de ‘matar’ a do meio, porque a mãe já estava a caminho. O pai ficou na sua sala, para segurar a fera, enquanto os filhos davam um jeito na mais recente gravação – pegaram o gravadorzinho e correram para o carro do caçula.

Os três começaram a gravar por cima da conversa que acabaram de ter. Faziam barulho e rasgavam papel, mas morriam de rir do ridículo da situação. Voltavam a fita e falavam qualquer coisa. Conseguiram, enfim, apagar a gravação. A mãe ficou desconfiada quando viu os filhos chegarem de carro no escritório trazendo o gravadorzinho.

— Fomos comprar pilhas novas, mamãe.

Os filhos, enfim, a convenceram de fazer o tratamento indicado pelo psiquiatra. Ela foi melhorando aos poucos, os ciúmes diminuindo…

O casal resolveu sair para jantar, para comemorar a nova fase.

— Veste aquele pretinho, querida.

— Aquele? Pra você me olhar daquele jeito outra vez?

— Sim, aquele mesmo. Você fica muito bem com ele. No dia da festa eu só queria te dizer como você estava linda…

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