Resgate no mar

A praia está lotada no primeiro dia do ano, apesar do tempo esquisito. De repente, um quadriciclo com dois salva-vidas surge no meio dos banhistas, com a sirene (igual a de bombeiros) ligada no máximo. Chama a atenção de milhares de pessoas que estão ali, desligadas, cuidando da ressaca da passagem e de olho nas crianças que não param. A máquina avança em alta velocidade no meio dos veranistas, rumo ao final da praia, onde estão os surfistas (e as melhores ondas). Outro salva-vidas, numa moto comum, mas possante, também liga sua sirene barulhenta e segue os colegas. Vai desviando das crianças, dos jovens e dos velhos, agora assustados e curiosos.

— É o primeiro afogado do ano – comenta a mulher da barraca bem ao lado de onde as máquinas param. Ela está de maiô preto e um chapéu-panamá com uma fita amarela amarrada na aba. Toda bezuntada de creme, apesar de o tempo estar mais para chuva do que para sol. Nem mormaço. Tá certo que a Organização Mundial da Saúde recomenda protetor solar a qualquer hora do dia, mas a mulher exagerou.

— Eu só molho os pés na água e olhe lá – diz sua colega, igualmente protegida, e suada.

Quase toda a praia já está voltada para a direção dos veículos do pessoal do resgate. Surge outro salva-vidas, forte, cabelos aloirados, com um pranchão de surfe, caminhando apressado para o local em que as máquinas estacionaram. Vai direto para o mar. Os dois do quadriciclo, um alto e um baixo, pegam boias e pés de pato e também entram na água. A multidão se posiciona na beira, de olho na ocorrência. O salva-vidas da moto possante, um moreno bem alto, de cabeça raspada e brincos, imitando brilhantes, um em cada orelha, demora um pouco mais para entrar. Não consegue apoiar direito o pezinho da moto nas suas já gastas sandálias. Antes, fizera uma tentativa de colocá-lo direto na areia, mas afundou e a moto quase caiu. Achou melhor usar as legítimas havaianas como base. Conseguiu! Entra correndo no mar.

— Aí, mano, esqueceu o pé de pato! – avisa o banhista todo tatuado, de bermudão estampado abaixo dos joelhos. O salva-vidas de brincos já estava furando as ondas atrás de seus companheiros.

Nisso aparece uma caminhonete, também da equipe de resgate, com a sirene ligada, no meio da multidão, derrapando, espirrando areia para todos os lados.

— Cuidado aí, mermão! Olha as criança!

Dois profissionais saem de dentro do veículo e tiram um bote inflável da carroceria, colocando-o na água. Ligam o motor e saem voando, literalmente, sobre as altas ondas, tão disputadas pelos surfistas daquele canto da praia. O motorista da caminhonete pega um pranchão e também corre para o mar.

— Se não errei nas contas, já são sete salva-vidas na água. Só quero ver no que isso vai dar – diz a bezuntada do chapéu-panamá, comendo uma espiga de milho. Assiste tudo de ‘camarote’, sem se mexer da sua cadeira.

— Este ano promete, amiga!

Os veranistas vão se aglomerando.

— Moço, por favor, o que está acontecendo?

— Sei lá. Parece que alguém se afogou no mar.

— Quem morreu?

— Eu ouvi uma senhora dizendo que foi um homem de idade. Coitado.

— Deve ter bebido além da conta. Nessa época o pessoal exagera nos aperitivos. Ainda bem que o meu marido tá de ressaca e nem veio para a praia. Graças a Deus!

— Esses salva-vidas são preparados. Reparou nas pernas deles?

— Olha lá o bote, como pula!

— O do pranchão é forte pra caramba. Viu o bíceps? Esse aí tem pegada.

— Os surfistas não estão nem aí, olha lá!

— Será que o corpo afundou?

— Ai meu Jesus, misericórdia!

— Achei o moreno de brincos o maior gato. Dentes brancos.

— Todo ano é a mesma coisa, não adianta…

— Vai ver o cara foi dar uma mijadinha.

— Olha aí eles de volta!

Os homens do resgate saem da água. Decepcionados. Caras fechadas.

— Não falei? Já era! – comenta a bezuntada do panamá, ainda em sua cadeira, tirando restos de milho dos dentes.

— Vira essa boca pra lá, amiga!

A multidão cerca os salva-vidas. Eles estão mesmo bem chateados.

— Negativo! Alarme falso! – diz o chefe deles, o motorista da caminhonete, preocupado em procurar alguma coisa no porta-luvas (seus óculos escuros).

— Ih!

— Isso não pode acontecer numa praia como esta, num balneário desta envergadura, com esta demanda de usuários. É muita responsabilidade. São mobilizados vários postos de salvamento, muitos profissionais envolvem-se na operação. Isso aqui não é brincadeira, não! – fala bonito o chefe, ajeitando os óculos Ray-Ban e ajeitando os cabelos.

— É, a gente fica aqui na expectativa, perde o nosso tempo, e nada! – comenta uma mulher, retirando-se, revoltada, com as duas filhas pequenas seguras pelas mãos.

— Os surfistas estavam tranqüilos, disseram que não viram ninguém pedindo socorro – revela o salva-vidas do pranchão, tirando água de dentro dos pés de pato.

— O rapaz passou de bicicleta no meu posto, avisou que tinha alguém se afogando e sumiu. Aí, eu acionei o esquema – justifica-se o baixinho do quadriciclo, levantando o queixo para chamar seu companheiro de motoca, o altão.

— Isso é coisa de moleque maconheiro folgado! Vem aqui zoar com o trabalho da gente. Ele viu foi uma pessoa boiando, pegando jacaré, e já achou que estava se afogando – reclama um outro, arrastando o bote inflável para a areia.

Os homens do resgate, desconcertados, pedem licença, retiram-se dali, dispersando a multidão.

Nisso, sai da água o salva-vidas de brincos, o que esquecera os pés de patos, esbaforido, e vai direto ver se a sua moto ainda está de pé. Está. Não olha para ninguém, liga sua máquina e some no meio dos curiosos.

— Gato! – grita uma lá.

— Vou me afogar só pra ser resgatada por esse deus ébano – diz uma outra.

O rapaz tatuado do bermudão estampado abaixo dos joelhos acompanha com o olhar a moto ir embora. Vira-se para seu companheiro, vestido e tatuado igual:

— Palhaçada isso daí, véio! Tava louco pra ver o boca-a-boca do moreno de brinco com o afogado, tá ligado? Nunca vi um boca a boca ao vivo! Só na tevê.

A bezuntada, agora sem o panamá, recolhe suas tralhas.

— Esta praia tá cada vez mais sem graça. Já foi muito melhor. Vamos embora daqui, amiga!

Levanta-se, joga o copo vazio de caipirinha de limão na lixeira dos plásticos e desaparece.

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