Saque

Em 1982, em Buenos Aires, a seleção brasileira de voleibol masculino ganhou a medalha de prata no Campeonato Mundial. Nenhuma comoção nacional.

Em 1983, no Rio de Janeiro, derrotou a imbatível União Soviética no estádio do Maracanã, sob chuva torrencial, para mais de 90 mil pessoas, recorde mundial de público a céu aberto para uma partida dessa modalidade, com transmissão ao vivo pela televisão (Bandeirantes). Os telespectadores já ficaram com a orelha em pé. Ganhamos dos caras pela primeira vez.

Em 1984, em Los Angeles, perdeu o Ouro para os norte-americanos nos Jogos Olímpicos (a União Soviética boicotou a competição). Surgiu aí a Geração de Prata, de William, Montanaro, Renan, Xandó, Amauri, Fernandão, Badalhoca, Bernard, Maracanã, Rui, Marcus Vinicius e Bernardinho. O Brasil ganhou novos heróis.

Alguns dias depois dessa conquista, esbarrei com William e Montanaro, agora astros, em uma festa numa casa noturna de São Paulo. Bem mais altos do que eu imaginava.

Vocês querem fazer uma revista de voleibol comigo? Perguntei, na lata, no meio daquele barulhão ao som de Footloose (Kenny Loggins), o hit do momento. Queremos sim, disse um deles, sem pestanejar, entre um remelexo e outro fora do ritmo. Então tá, te ligo amanhã, gritei, antes que eles mudassem de ideia. Foi essa a nossa conversa.

Liguei no dia seguinte, depois do almoço, marcamos encontro na minha editora. Chegaram em suas respectivas motos, chamando atenção da vizinhança, que logo os cercaram para pedidos de autógrafos. Ídolos nacionais.

Vocês emprestam seus nomes para eu colocar na capa e me dão toques nas reuniões de pauta. Só isso. Vamos ajudar a divulgar o voleibol no Brasil.

Fomos, nós três, para o Rio de Janeiro pedir as bençãos do Carlos Arthur Nuzman, então presidente da Confederação Brasileira de Voleibol. Nada acontecia com o vôlei sem a anuência dele. Falou que tudo bem, só queria saber onde a gente ia achar tanto assunto para uma revista mensal. Isso é o de menos, presidente, disse eu, deixa a bola com a gente.

Surgiu aí a Saque, a revista do vôlei. A publicação foi sucesso editorial (vendas em bancas); comercial (publicidade), nem tanto, porque o mercado não acreditava na novidade.

A Saque, modestamente, foi parte da engrenagem que ajudou a tornar o voleibol a segunda modalidade esportiva na preferência dos brasileiros. Conteúdo era o que não faltava. Falávamos de tudo, desde jogos das seleções masculina e feminina, dos campeonatos regionais, das equipes, do vôlei de praia, até das jogadoras menstruadas em dias de decisão e das unhas encravadas nos pés dos atletas gigantes. Assunto não falta, presidente.

A Saque durou dois anos, não resistiu aos tempos difíceis da economia brasileira, com suas obrigações reajustáveis do tesouro nacional, essa coisa estranha que corrigia a inflação e ditava o rumo do nosso dinheiro. O voleibol, no entanto, já não precisava mais da revista, porque logo veio a Geração de Ouro, ganhando tudo e mais um pouco pelo mundo afora, e a televisão se encarregando de consolidar o sucesso.

Em 2016, no Rio de Janeiro, ainda outro dia, a seleção brasileira de voleibol masculino conquistou pela terceira vez a medalha de ouro em Jogos Olímpicos. O Brasil inteiro viu e vibrou. Os meninos, emocionados, entoavam o hino nacional no lugar mais alto do pódio. Eu, com os olhos marejados, em pé na sala de casa diante da televisão, sacudia o corpo ao som de Footloose na cabeça.

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