Sempre livre

O assunto é delicado, desagradável de comentar na frente dos outros, principalmente das mulheres. Ainda do mais para uma namorada em início da relação, sem muita intimidade.

Resolvi contar para um amigo, morrendo de vergonha, depois que ele percebeu meu estado emocional e perguntou o que estava acontecendo.

Tive hemorroidas. Pronto, falei!

Foi quando descobri que a maioria das pessoas que conheço já teve (ou tem) e não sente o menor constrangimento em conversar abertamente sobre o assunto. Até então, sofri calado.

Hemorroida. O próprio nome já é feio. Segundo o Google, são veias inchadas e dolorosas na parte inferior do reto ou do ânus. Uma dessas minhas artérias inflamou, inchou e sangrou.

Estava indo tomar banho para encontrar a namorada nova quando o sangue jorrou. Fiquei preocupado. Sentei no vaso, chamei meu caçula mais novo, adolescente, que quando me viu no trono, tapou os olhos com o antebraço esquerdo, o nariz com a mão direita, e virou-se de costas para mim.

— Quê?

— Vai na farmácia e me compra gaze!

— Gaze?

— É.

— Machucou?

— Mais ou menos. Vai! Correndo!

— Ah, pai, tô jogando. Daqui a pouco.

Dou uma olhada na situação.

— E compra Modess!

— Compra o quê?

— Aquela coisa que mulher põe quando tá menstruada. Sabe o que é “menstruada”?

— Negócio que sai sangue da mulher, pensa que eu não sei?

— Então!

— Ah, não, pai, isso eu não compro!

— Vai agora!

Ele foi, trouxe um pacotinho de gaze que não deu nem para o começo.

Quando resolvi mais ou menos a circunstância com a gaze e uma toalhinha de lavado, fui eu mesmo na farmácia comprar a coisa. Procurei em todas as prateleiras e não encontrei. Pedi ajuda ao mocinho uniformizado.

— Onde fica o Modess?

Ele não me respondeu, parece que não escutou.

— Modess! – Insisti.

O rapazinho me olhou com cara de espanto, percebi que não estava entendendo.

— A mulher põe aqui, ó – fiz com a mão, já de péssimo humor.

— Ah, absorvente! Ali no segundo corredor à direita, senhor.

Pelo visto Modess saiu de linha, pensei.

— O senhor quer com abas ou sem abas? Aproveita e leva um OB na promoção.

Comprei Sempre Livre (gostei do nome) sem abas e voltei para casa para encarar minha menarca, apesar de já estar entrando na menopausa. (Para quem não sabe, menarca = primeira menstruação.)

Como é que eu coloco isso, essa parte para cima ou pra baixo? E como é que eu faço pra essa merda não se soltar do local, vazar sangue para os lados, manchar a roupa, o sofá, o banco do carro, o colchão? Sem contar o constrangimento de sair por aí com os fundilhos molhados de sangue. Só cueca não segura a coisinha no lugar certo. Peguei escondido uma sunga preta apertada do meu caçula para fazer as vezes de calcinha.

Liguei para a namorada e desmarquei o jantar romântico num japonês que havíamos combinado. Disse que não estava me sentindo bem. Ela ficou preocupada, perguntou se eu estava precisando de alguma coisa. Disse que tudo bem, só um pequeno mal-estar.

O sangramento demorou para estancar. Vivi intensamente aqueles dias, virei craque na prática de colocar (e tirar e dobrar e jogar na lixeira) absorvente.

Fiquei pensando nas mulheres, bicho esquisito, todo o mês sangra, canta Rita Lee.

Agora, mais do que nunca, entendo perfeitamente o que é TPM. A minha demorou um mês para passar.

E me custou a namorada.

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