Senta que o leão é manso

Aconteceu em Lins. Sou testemunha ocular da história.

O circo Pan-Americano estava armado no começo da Nicolau Zarvos, na rotatória onde hoje é a rodoviária, ali na baixada perto do Campestre, o rio que passa pela cidade. O espetáculo seria uma matinê com preços promocionais para crianças e estudantes. Fui com os meus amigos Anta, Caradura, Fenemê, Minduim, Policarpo, Zelão e mais outros que não me lembro agora. Tínhamos uns 15 anos de idade.

Sentamos lá atrás perto da lona. As arquibancadas eram de tábuas de madeira soltas montadas em estruturas metálicas. O circo foi enchendo de gente. À nossa frente, as cadeiras e a gritaria da criançada chegando das escolas; mais adiante, já próximos ao picadeiro, os camarotes com famílias compostas por idosos e mais crianças.

Estavam armando a jaula para o número inicial dos leões quando nos instalamos. Eram dois machos e duas fêmeas, como anunciara o domador fortão com seus longos cabelos pretos penteados de lado com brilhantina, acompanhado pela domadora sexy, loira, cabeluda como um leão, de shorts imitando a bandeira dos Estados Unidos.

Um dos nossos amigos tinha mania de não colocar cueca. Lembramos na hora da piada do cara que não usava essa peça do vestuário masculino e foi ao circo, acomodando-se nas arquibancadas. Como usava um calção largo sem nada por baixo, seu saco libertou-se e ficou nos vãos de duas tábuas soltas. De repente um leão escapou da jaula, o público entrou em desespero e levantou-se para fugir dali. As tábuas se movimentaram e prenderam os testículos do cara sem cueca. Ele, desesperado, com uma voz bem fininha (aguda), gritava: “Calma, gente! Senta que o leão é manso!”.

Quando ainda ríamos da piada velha, o amigo que nunca usava cueca deu uma conferida no lugar que estava sentado e nos mandou praquele lugar.

Começa o espetáculo.

Gritos dos domadores, chicotadas barulhentas no ar, rugidos dos leões, aplausos. Num determinado momento, o leão salta para sentar-se num daqueles aparadores que ficam na parte mais alta da jaula, preso entre duas grades. A coisa não estava aparafusada direito e com o peso do bichão, a jaula se abriu.

Esse leão caiu entre os camarotes. Assustado com o berreiro geral, foi para o lado da saída (entrada) do circo. Dois outros também escaparam – parte da jaula tombou por inteiro – e vieram ligeiros para embaixo das arquibancadas onde estávamos. O domador agarrou o único leão que não escapou pelo pescoço (e ele ficou dócil).

Pulamos dali, passamos por baixo da lona e saímos pelos fundos. Não sabíamos se os leões estavam atrás da gente, apenas corremos desesperadamente sem olhar para trás.

Fora do circo próximo a lona havia uma cerca de arame farpado de uns dois metros de altura, que tivemos que correr mais ainda para dar a volta nela e fugirmos pelo portãozinho lá na ponta, que dava acesso à área do depósito de gás das Lojas Arapuã. Muitas pessoas pularam a cerca.

Passamos – minha turma e quase todo o público das arquibancadas – por um vão na parede de uns 60 x 60 centímetros, guichê por onde são expedidos os botijões. Lá dentro, um galpão enorme, vazio e escuro.

Alguns amigos não estavam mais com a gente. Um deles, o Minduim, correu para o lado do picadeiro para ver se tinha acontecido alguma coisa com a irmã que estava na fila do gargarejo, nos camarotes. Nada de Policarpo e Caradura.

Ficamos um tempo no armazém para nos recuperar do susto. Todos falando ao mesmo tempo, que ouviram alguém dizer que graças a Deus já tinham chamado as “Forças Armadas” (as polícias civil e militar e o exército, o conhecido 4º BC – Batalhão de Caçadores); que deram um tiro num dos leões, mas não sabiam se tinham acertado ou não, e ele fugira espantado, indo para os lados do Country Club; que algumas crianças foram hospitalizadas, mas nada grave, apenas escoriações; que muita gente desmaiou sendo atendida pelo pessoal do próprio circo.

Resolvemos sair dali. Ao lado do depósito morava o Gaúcho, conhecido na cidade por sua valentia, que saiu de casa com uma 12 Dois Canos (espingarda), “Cadê o bichano, cadê o bichano?”.

A rádio Piratininga de Lins mandou o repórter Josué de Oliveira para o local, que, de cima de uma árvore, irradiava como se fosse uma partida de futebol: “estamos aqui diretamente do circo Pan-Americano, as feras ferinas evaporaram-se”.

O comércio fechou as portas. A cidade virou um caos, congestionamento de carros nunca visto – todos na direção do circo em busca de parentes.

Fomos para a Casa Ideal, loja de calçados ali próxima ao circo, da família do Caradura, que estava sumido, preocupando a todos, principalmente a mãe, já aos prantos.

Ficamos aguardando a chegada dos amigos desaparecidos. Surgiu o Minduim que foi socorrer a irmã, mas tudo bem, porque os leões escaparam pelo lado oposto que estava. Chegou o Policarpo com um galo imenso na testa e os óculos quebrados (quando saiu debaixo da lona, meteu a cara no cabo de aço de sustentação do circo) – disse que ficou tonto e não sabia para onde correr. Depois de meia hora, aparece o Caradura todo arranhado nas costas (foi um dos que pulou a cerca de arame farpado). Contou para a mãe e irmãs que os arranhões eram das garras de uma das leoas, que ele escapou por um triz. E elas acreditaram. Até hoje.

A irmã de um outro amigo, o Cadu, de cinco anos, se perdeu na correria desesperada. A mãe em casa, agoniada com a falta da filha, chorava e gritava pela janela. Depois de um bom tempo, a Rádio Piratininga anuncia que uma menininha fora acolhida na confusão por uma família da Vila Ribeiro. Era a irmã do Cadu.

Ficamos sabendo que uma outra criança, de origem japonesa, o Ulisses, havia sido mordido na orelha por um dos leões. O menino logo ganharia o apelido de “Chiclete de Onça”.

Não teve espetáculo noturno naquele dia, obviamente, nem nos próximos – o Pan-Americano foi embora.

Em tempo: assim que o circo ficou vazio, conseguiram trazer os leões de volta aos seus respectivos cativeiros. Os que estavam assustados e acuados debaixo das arquibancadas, obedeceram apenas ao comando tranquilo da domadora, sem chicote, e foram dormir depois de comer alguns quilos de carne. O que fugira para o clube de campo, voltou para casa, vivo, sob a voz carinhosa do seu domador.

Os leões eram mesmo mansos. Quem os estressaram e causou todo o tumulto foi o distinto público.

Comments are closed.