Soneca

Ele ganhou esse apelido no ginásio. Sentava-se na última carteira da sala de aula e passava o tempo todo dormindo. Quando algum professor falava mais alto, acordava. Assustado. E bravo. Aí, pegava o jornal e ficava folheando até terminar a aula. Gostava de ler as notícias do dia. Só não lia Economia, porque dava sono. Entendia de tudo.

Soneca dormia mais nas aulas de matemática, por não dominar muito o tema e também por não suportar a professora. Dormia, não. Tentava. A voz estridente da professora, nissei, o tirava do sério. Não permitia aquele sono profundo e gostoso da aula de francês, por exemplo. Até na Educação Física, ele dava um jeito de se encostar atrás da caixa de bolas e cochilar. Nunca roncou na vida, gabava-se.

Soneca dormia no cinema (ainda nos trailers, antes de o filme começar), na missa das dez (durante o sermão), na casa da namorada (depois dos beijos e abraços). Dormia feito criança, em qualquer lugar.

Soneca foi servir o exército. Na cidade onde morava tinha quartel. Todos os jovens dos municípios vizinhos, e até dos mais longínquos, iam lá prestar serviço militar.

Ele fez questão de servir. Sempre teve curiosidade em saber o que faz o soldado, o cabo, o sargento, o aspirante, o tenente, o capitão, o major… até chegar ao marechal cinco estrelas. Como seria o trabalho de cada um no dia-a-dia do quartel? Será que um era assistente do outro?

Aprendeu, no seu primeiro dia de soldado-raso, que eram mais de quinze os níveis hierárquicos do exército. Muito mais do que imaginava. Isso, depois de acordar de madrugada e correr, ainda com o dia escuro, uns trocentos quilômetros, gritando junto com os outros soldados: um, dois, três, quatro; um dos, três quatro! Chegou a dormir na sala de aula teórica, mas logo apareceu o cabo (ou seria o sargento?) e o enquadrou. Imaginou: se ficasse dois anos em cada patente, seria marechal na hora de se aposentar. Quanto maior a patente, mais bravo era o militar, reparou.

Em sua primeira sentinela, Soneca dormiu. Lógico. Tinha de ficar a noite inteira acordado, atento ao que acontecia no entorno da caserna. Não deu sorte, coitado. Justo naquela noite, dois bêbados invadiram o quartel e fizeram xixi, muito xixi, bem em frente ao local onde o coronel despachava.

O coronel, olhos azuis, cabelo escovinha, era o mais nervoso de todos. Soneca não via os generais (três níveis, estudou: de Brigata, de Divisão e de Exército) e muito menos o marechal, o bam bam bam das medalhas penduradas no peito. Esses só apareciam, segundo o pessoal, nas solenidades de 7 de Setembro. Quem mandava mais naquele quartel, portanto, era o coronel.

Quando o coronel chegou ao seu escritório, com o dia raiando, banho tomado, cabelos ainda molhados e espetados, o cheiro do seu Lancaster logo se misturou ao da urina.

Soneca passou o dia na solitária. Foi a sua primeira. Não reclamou. Dormiu o tempo todo.

Aos poucos a fama de dorminhoco do Soneca correu pelo quartel. Ele não prestava pra nada, segundo seus inúmeros superiores. No entanto, era gente boa: comprava cigarros pro cabo, balas pro sargento e até emprestava revistinha do Carlos Zéfiro pro terceiro-tenente. O coronel não gostava dele, por causa do vacilo noturno. Um soldado jamais pode falhar! Sempre alerta!

Descobriram que o Soneca dirigia bem (tinha até carro, um fusca). Certa vez, o escalaram para motorista particular da família do coronel. A missão era levar a mulher e a filha a um baile de debutantes, em uma cidade vizinha, e ficar esperando a festa terminar para trazê-las de volta. Sem problemas. Soneca dormiu, lógico. Assim como alguns outros motoristas que foram levar os patrões e as madames ao evento.

A mulher do coronel e, principalmente, a filha, foram com a cara do Soneca. Virou chofer da família. E namorado, escondido, da jovem. Apesar do cabelo de reco, Soneca tinha lá seus atributos físicos. Era boa-pinta, como se dizia. Nem a mãe dela desconfiava do romance.

Uma das coisas chatas da nova função era acordar mais cedo que os outros pra ir buscar o sogro, ou melhor, o coronel, na casa dele. Tinha que chegar às cinco e trinta em ponto! O coronel era caxias.

Algumas semanas depois, folga do Soneca no exército. Resolveu sair pra passear com a namorada, no jipe do quartel. O banco de trás era mais espaçoso que o do fusca. Estava à paisana. Pegou a menina na esquina combinada e foi pra estradinha que ficava perto do quartel. Ali nunca passava ninguém. Deu azar. Soneca e a bela debutante estavam no bem-bom quando quem aparece? Sim, o coronel estressado! O pai do broto! Resolvera dar uma volta nas redondezas do quartel para ver terreno para construir um novo campo de treinamentos. Acabou descobrindo a filha e o soldado-raso em trajes sumários, ou melhor, sem roupa mesmo. Usar carro oficial, à paisana, e ainda proporcionar cenas de atentado ao pudor, rendeu ao reco duas semanas na solitária. A menina ficou sem sair de casa por trinta dias.

A partir daí, o coronel passou a ser implacável com Soneca. Qualquer deslize, solitária. Soneca foi tomando ódio pelo coronel, que vivia pegando no pé dele. O desgraçado o afrontava: fazia-o buscar seu almoço, mandava-o servir e depois o ordenava a limpar a mesa e a varrer o chão. Tudo bem que o Soneca cuspia na comida e muitas vezes esfregava a alface nas partes que só a filha do próprio tocava.

Quando havia reuniões entre os mais patenteados do quartel, o coronel o fazia esfregar o chão, o obrigava a engraxar os coturnos dos superiores. Se fizesse cara feia, solitária! Mais respeito, soldado!

Soneca não sabia o que fazer para se livrar do coronel.

Quando chegou o desfile de 7 de Setembro, ele foi designado para ser o motorista do jipe, sem capota, que conduziria o coronel na parada. Dentro do jipe, só ele e o homem. O coronel ia em pé, na parte de trás do jipe, em posição de sentido. A ordem era a seguinte: Soneca teria de dirigir bem devagar (uns 10 quilômetros por hora, no máximo), frear por uns segundos em frente ao palanque, onde estavam os generais e o marechal cheio das medalhas no peito, além das demais autoridades, como prefeito, vereadores, médicos, bispo, gerente do Banco do Brasil, centro-avante do time da cidade, etc. Aí, o coronel bateria continência para os seus superiores e o jipe continuaria na mesma velocidade.

Soneca conduziu o jipe como o combinado. Bem devagar, por toda a avenida. Aquilo foi dando um sono… O coronel em pé. Mãos encostadas nas pernas. Ereto. Olhar para o infinito. Nem piscava. Soneca cochilou… De repente, aplausos! Estavam na frente ao palanque. Soneca assustou-se e freou bruscamente o jipe sem capota.

Soneca pegou 30 dias de solitária. O coronel levou 15 pontos na testa.

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