Toc Toc

Foi só ele se mudar para o quarto andar de um prédio de dezoito, depois de morar a vida toda em um sobrado, que a coisa começou. E começou pra valer quando faltou energia no edifício e ele teve de subir pelas escadas: 65 degraus do térreo até o apê dele. Dezesseis por andar (do térreo até o primeiro são 17). Duzentos e oitenta e nove até o último. Coitada da velhinha que mora lá em cima. Já para o subsolo, para a garagem, 18 degraus.

Passou a curtir mais ainda a brincadeira. Antes, já gostava de contar degraus, mas os do sobrado não tinham a menor graça, mudavam nunca, eram os mesmos quatorze todas as vezes que subia (ou descia), e contava.

Do sobrado pra rua foi um pulo. Pegou o Metrô pra ir pro trabalho e… um, dois três, quatro… desceu as escadas da estação ao lado da sua casa: quarenta e cinco degraus, em três lances de quinze. Com as viagens subterrâneas para todos os lados da cidade, logo reparou que o número de degraus variava de estação para estação, sempre entre 13 e 17, por lance. Gostava das que tinham mais lances, pra registrar a descida e imaginar a profundidade que se encontrava em relação aos simples mortais, andando apressados lá em cima. Tinha seus macetes: pra descer, o piso térreo deve ser contado como primeiro degrau, porque, quando sobe, este é o último e é contabilizado.

Até escada rolante ele contava os degraus. Não ficava parado esperando a rolante levá-lo. Subia (ou descia) caminhando, como se a mesma não estivesse em movimento. E contava. Sacou que pela escada rolante, cada degrau subido (ou descido) equivale a dois de uma escada normal. E assim foi por todas as escadas que subia (ou descia).

Certo dia, na saída do Metrô, caminhando pela calçada cheia de gente, resolveu seguir bem de perto aquela bunda arrebitada pra lá e pra cá, quer dizer, os passos de uma garota de calça jeans bem apertada (já estava de olho nela desde o primeiro degrau da subida da estação). Onde ela pisava, ele, disfarçadamente, pisava atrás. Viu que tinha que aumentar a sua passada para acompanhar as da moça da buzanfa, que era até mais baixa do que ele.

Logo percebeu que estava andando com os passos curtos. Deve ser por causa das escadas.

A partir daí, isso virou rotina (mania) pra ele. Passou a seguir as passadas das mais variadas pessoas e, sempre, as dele eram menores. A preferência era por mulheres, para observar a anatomia, e também porque já estava cansado de saber que não conseguia acompanhar os marmanjos. Gente de perna cumprida, nem chegava perto.

Nas férias, na praia, o barato era mais real: seguir as pegadas na areia, de qualquer pessoa. Todas com passadas maiores que a dele, lógico. O tamanho dos pés, idem. Aí, descobriu o seguinte: as pessoas mais gordas pisam pra fora, tipo dez pras duas. As mais gordas e os caiçaras, sem exceção – estes, quase quinze pras três. Já as mais magras pisam com os pés pra frente. As bem magrinhas viram os pés para dentro. Devem ser tímidas.

Voltou das férias decidido: precisava dar um jeito nesse seu passo-curto. Resolveu ‘apostar corrida’ com os transeuntes quando fosse atravessar a rua, pra estimular as suas passadas. Quando o cruzamento estava cheio de gente aguardando o sinal fechar para os carros, ele se postava ali, no meio das pessoas. Assim que acendia luz verde do outro lado da rua, com a figura do bonequinho de pernas bem abertas, lá ia ele, passos ágeis, quase que correndinho, pra chegar do outro lado na frente de todo mundo. E não é que deu certo? Ganhava sempre. Mas aí surgiu o inesperado: ao atravessar uma avenida de pista dupla, chegou no canteiro do meio na dianteira, como esperado; certo da ‘vitória’, distraiu-se e foi ultrapassado na outra pista por dois office-boys e uma magrela alta com uma mochila pesada nas costas. Não teve tempo de reação e perdeu a parada. Ficou indignado. Passou a ficar esperto pra esse detalhe. Quando a travessia era de avenida, toda atenção era pouca. Permaneceu ‘invicto’ por meses.

Já estava caminhando feito gente grande. A ‘prova’ para atravessar ruas ou avenidas com as pessoas que partiam junto com ele pro outro lado já não tinha mais graça. Esse assunto estava resolvido. Precisava de novos desafios. A proposta agora era apostar corrida também com as pessoas que saíam do outro lado. Ele observava os apressadinhos de lá e partia de cá, de olhos neles, já que com os de cá já estava tudo dominado. Era ninja. Depois, no final da travessia, olhava pra trás, pro lado de onde partira, pra constatar que havia chegado na frente dos apressadinhos que saíram do lado que estava chegando.

Ficou imbatível nas travessias das ruas e avenidas da cidade. Os degraus agora eram de dois em dois; dependendo da escada, de três em três.

De repente, ele sumiu do prédio dos trezentos e sete degraus (e os dezoito do subsolo, esqueceu?), e não avisou ninguém. O vizinho de frente foi quem deu a notícia para os condôminos, depois de meses: ele está na Europa, postou uma foto no Facebook. Parece que percorrendo os caminhos que levam a Santiago de Compostela. Feliz da vida.

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