Toda suja de batom

Ela foi uma das atrações do Rock in Rio de 1985 com suas extravagâncias vocais e visuais em duas apresentações no evento. Nina Hagen, a cantora punk alemã, repetiu a dose em um único show em São Paulo. Ela tinha 30 anos.
Dimas Schittini foi o fotógrafo oficial da turnê da estrela no Brasil. Ele fazia frilas para as publicações que eu editava para a Ideia Editorial (selo da Editora Três) e teve a ideia de fazermos uma revista só com fotos (dele) da Nina. Topei na hora.
Dimas conseguiu um lugar para mim na fila do gargarejo do show paulistano, num espaço entre o palco e a plateia, separado por grades.
Nina Hagen, voz potente, não parava de se mexer no palco. Frenética. Teve um momento que ele deu um gole d’água numa garrafinha e cuspiu um jato na plateia, que veio direto na minha cara. Acho que ela percebeu e me deu uma olhadinha (piscadinha?) como que pedindo desculpas, coisa de segundos. Fiz um positivo com o dedão. Adorei aquele instante. Paixão à primeira cuspida.
Outro que estava por ali no gargarejo, Supla, também ficara enfeitiçado pela alemã dos cabelos coloridos e das mãos bonitas – ela chegou a participar do clipe dele da música “Garota de Berlim”.
(Cabe aqui um parênteses: a chanceler Angela Merkel, ao deixar o governo da Alemanha depois de 16 anos, separou algumas músicas para ser apresentada pela banda militar na sua despedida do cargo. Entre elas, estava o clássico punk dos anos 1970 cantado pela Nina Hagen – “Du hast den Farbfilm vergessen” (“Você Esqueceu o Filme Colorido”), cuja letra se passa na região de seu antigo distrito eleitoral, que a fazia lembrar do ponto alto de sua adolescência, na Alemanha Oriental.)
Depois do show, fui no camarim levado pelo Dimas. Disse a ela (havia uma tradutora de plantão) o que tinha acontecido com aquele gole d’água, ela não se lembrou evidentemente (acho que viajei naquele momento da cuspida), desculpou-se com seu permanente sorriso lindo e me deu um selinho com a boca suada e toda suja de batom. Não limpei.
Com o passar dos anos, Nina mudou radicalmente seu estilo, sem largar o visual excêntrico, sem nunca perder o trono de mãe do punk: tornou-se cantora gospel, passou a gravar com grupos alemães, virou ativista política e começou a fazer dublagens para a televisão – a partir da décima sétima temporada do seriado The Simpsons, é dela a voz de Marge Simpson.
Continua linda como sempre. Jamais abandonou batom.

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