Topetudo por dinheiro

A pista do aeroporto de Congonhas em São Paulo estava entupida de fãs para esperar Bill Haley e Seus Cometas em sua primeira turnê pelo Brasil em abril de 1958. Assim que colocou os pés nas escadas do avião com seu impecável terno e topete “pega rapaz” e acenou para o público que dançava sob o ritmo da chuva fina que caía, houve desmaios e confusão.
Para muitos, ele é considerado o “Pai do Rock”, o que tornou popular esse ritmo nos Estados Unidos, no início dos anos 1950, com a música “Rock Around the Clock”.
Bill Haley estava com 33 anos de idade, em plena forma, apesar de uns quilinhos acima. Não tinha o sex appeal dos outros roqueiros que também despontaram na época, como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis (não confundir com o comediante Jerry Lewis) e Chuck Berry, mas ele e sua banda faziam barulho e sucesso.
Vários grupos de rock (The Beatles e Rolling Stones, por exemplo, para não alongar muito a lista) logo surgiram pelo mundo afora e os cometas começaram a perder luz.
Ponto.
Já em plena decadência, 17 anos depois, em 1975, Bill Haley e Seus Cometas foram convidados para uma nova turnê pelo Brasil. Eu, bem garoto, morava no Rio de Janeiro, trabalhava na agência responsável pela realização dos shows dos velhos roqueiros na Cidade Maravilhosa.
Seriam duas apresentações no Maracanãzinho: na noite de sábado e na matinê de domingo. Como eu fazia parte do staff, assisti aos espetáculos de dentro do palco. Vi o grande ídolo nos bastidores, sempre simpático, suado, bem acima do peso, vestindo um paletó meio apertado e dando o tapa final no seu indefectível topete colado na testa com muita brilhantina, antes de entrar em cena. O pequeno público presente vibrou e dançou sem parar nos dois dias, naquele calorão.
(Em São Paulo o show seria no Play Center, parque de diversões localizado ao lado da Marginal do Tietê, com palco montado entre a montanha-russa e a roda-gigante.)
Antes de saírem do Rio para apresentações em outras capitais, os músicos teriam dois dias de folga para fazer compras e turismo.
A agência, por insistência do pessoal da área comercial, em especial de seu gerente, um baixinho cheio de marra e mandão, resolveu fazer mais uma apresentação da banda na baixada fluminense (acho que foi em Duque de Caxias, não me lembro agora, mas não vem ao caso nesta história), na segunda-feira, “para levantar mais uns trocados para nós” (frase dita insistentemente pelo pequeno mandachuva com seu forte sotaque carioca).
Imagine o trampo para montar um show de Bill Haley e Seus Cometas num ginásio da periferia carioca sem a menor infraestrutura. Como eu era da produção, jovem e disposto, sobrou para mim. Trabalhei feito louco a segunda inteira para dar condições aos artistas de se apresentarem no minúsculo palco a partir das 21. Foi o maior tumulto. Parecia até que tinha mais público do que no Maracanãzinho. Gente saindo pelo ladrão.
Não fiquei até o final porque já não me aguentava mais em pé. Fui para casa dormir.
Quando cheguei na agência no dia seguinte, mais tarde do que de costume, o comentário era um só: assaltaram a bilheteria do show da baixada. Mas como? Ninguém sabia explicar o que tinha acontecido e o pessoal da área comercial não fora trabalhar naquele dia.
Dois dias depois – pura verdade -, surge o gerente comercial tampinha dentro de um carrão branco zero quilômetro, cabelos esticados para trás com muito gel, barba feita, terno verde bem cortado e sapatos italianos bordô sem meias, como se nada tivesse acontecido.
Pedi meu boné.

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