Tudo boa gente

Aqui na esquina de casa (Brooklin Paulista) tem uma loja de artigos para construção que ocupa uma área de uns 10 metros quadrados, no máximo. O que você precisa tem lá, e barato, muito barato. Inacreditável.
Sem prateleiras, os produtos ficam pendurados nas paredes e no teto e espalhados pelo chão [foto real abaixo]. Dentro da loja, apenas um corredorzinho onde a dona se movimenta. Bem na entrada, um balcão de tábua do tamanho da largura do corredor, para o cliente pedir e aguardar. Um de cada vez.
A dona é uma japonesa de cabelos grisalhos presos com uma tiara, magra, baixa, habitualmente de vestido florido (parece que é sempre o mesmo) e um avental surrado bege com um bolso na frente, sandálias havaianas. Desprovida de qualquer vaidade. Presteza e integridade fora do normal. De pouca prosa, conversa estritamente o necessário.
O cliente chega lá, dá bom-dia, ela responde com a mesma saudação ou apenas sorri timidamente, pergunta se tem qualquer coisa de construção. Ela vira-se sem dizer se sim ou não, desaparece no meio dos artigos do estabelecimento e volta rapidamente com a mercadoria na mão, passando os dedos sobre a embalagem para tirar o pó.
O cliente pergunta quanto é, mesmo vendo a etiqueta com o preço grudado no produto, ela apenas repete o valor – surpreendentemente baixo -, já com a maquininha na mão: débito ou crédito? Efetua o pagamento, tira uma via para o comprador e guarda a outra no bolso do avental, em movimentos rápidos. O cliente agradece e vai embora.
A loja funciona das 8 às 16 horas, que é quando ela fecha e vai para casa, bem longe dali. Está estabelecida nessa esquina faz uns 40 anos. Conhecida no bairro:
— Vai na japonesa que tem.
E tem. Não tem erro.
Ponto.
Descobri um encanador/pedreiro aqui no bairro, o seu Zé, já com seus setenta e tantos, vitalidade de garoto, que anda por todos os lados com uma mochila cheia de ferramentas pesadas nas costas. Ele também mora distante, vem pra cá de trem todos os dias. Senhor tímido, baixo, magro, cabelos brancos, de poucas palavras. Desses que faz tudo e cobra quase nada. Inacreditável.
Outro dia, eu estava procurando no Google, Mercado Livre, etc, uma canopla para a descarga do banheiro de serviço de casa. Não achei. Liguei para o seu Zé – ele só atende e fala pelo celular, nada de WhatApp – e comecei a explicar a situação.
— Isso não fabrica mais – me interrompeu com sua voz baixa, apenas ouvindo o início da minha explanação. — Mas na japonesa deve ter.
Marcamos para o dia seguinte – ele está sempre disponível para o dia seguinte. Chegou cedo em casa, bateu os olhos na válvula e confirmou:
— Isso mesmo. Coisa velha.
Seu Zé pegou o celular, desses bem antigos, ligou para a japonesa:
— Tem aí o… (falou um código de letras e números)?
Não disse bom-dia, como-vai, coisa alguma, nem se identificou. Ela respondeu imediatamente do outro lado (não ouvi), ele desligou sem se despedir.
— Vamos lá – me chamou.
Chegamos lá, uma pequena fila na entrada, sob um sol de meio-dia. Quando foi a nossa vez de sermos atendidos, a japonesa já estava com a canopla na mão. Disse apenas o valor. Dei o cartão, débito, digitei a senha, cortou o papelzinho, me deu, e guardou o dela.
— Obrigada – agradeceu, já de olho no próximo cliente atrás de nós.
Voltamos para a casa, seu Zé instalou a peça, consertou um vazamento da torneira do outro banheiro, desentupiu a pia da cozinha e deu um jeito no registro de água que precisava de um aperto.
— Quanto é?
Pensou, pensou e disse o preço. Barato. Ao abrir a carteira, lembrei-me que havia dado o dinheiro para o meu filho sair com a namorada.
— Vamos comigo ali no caixa eletrônico, seu Zé. Rapidinho.
— Não esquenta a cabeça, não. Deixa depois lá na japonesa, eu pego outro dia.
— Mas como?
— Tô sempre lá. Aqui no bairro nós fazemos isso, um acode o outro, é tudo uma família só. Pode deixar o dinheiro com ela sossegado. A japonesa é boa gente.

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