Um homem pra chamar Dirceu

Fui convidado para um churrasco na chácara de um casal de amigos, com direito a karaokê. Odeio esse tipo de cantoria, sou desafinado e envergonhado. Ainda mais para um público de umas trinta pessoas.

Enquanto Ana Lúcia, a irmã da dona da chácara, não chegava com os equipamentos eletrônicos para a gritaria, a conversa era sobre música.

Falei que no início de minha carreira de jornalista trabalhei em uma pequena editora que fazia revistas de músicas cifradas para violão e guitarra. Quem tirava as letras das canções dos elepês era uma garota, um tanto desligada, como convém a qualquer estagiário. Contei como ela havia transcrito “Como nossos pais”, do saudoso Belchior, sucesso na voz de Elis Regina: É você que é mal passado e que não vê que o novo sempre vem. O correto, todos sabem: É você que ama o passado... Sempre que ouço essa música, até hoje, eu a canto com a ‘letra’ da estagiária. Acho que tem mais a ver.

O dono da casa, no comando da grelha, logo se lembrou de um primo que adora rock brasileiro, mas sempre implicou com o Legião Urbana. Vivia dizendo, com toda autoridade do mundo: odeio essa Legião Umbanda, ridículos, não sabem fazer música, tem uma lá, até que fez sucesso, que eu não consigo entender o que eles querem dizer: Tenho um gado distraído / Impaciente e indeciso… O gado tá sempre distraído, até aí beleza, mas o que tem a ver com o resto?

A música em questão é “Quase sem querer”, de Renato Russo. Tenho andado distraído / Impaciente e indeciso / E ainda estou confuso…

Minha amiga, no preparo das caipirinhas, não se conteve: vocês não viram a minha irmã, a Ana Lúcia! Deixa ela chegar e tomar conta do ambiente.

Segunda a dona da casa de campo, a irmã, entre suas inúmeras qualidades, é metida. Faz questão de cantar sem ler os caracteres, porque diz que sabe tudo de cor e salteado e reclama que aquelas letrinhas miúdas só servem para atrapalhar o ritmo, tirar a concentração.

Buzinaço na estradinha de acesso à chácara, espantando os passarinhos das árvores e assustando os cachorros que correram furiosos para o portão. Era Ana Lúcia anunciando sua chegada junto com a filha adolescente – parece que é separada –, pedindo para os homens ajudarem a carregar a parafernália para o barulho. Não consigo entender música alta na natureza, no meio do mato.

Não deu cinco minutos e o circo estava armado. E ela já com o microfone na mão, mandando um “Como eu quero’, do Kid Abelha. E com direito a bis diante de apresentação tão empolgada. Cantou novamente e foi abrir uma latinha de cerveja, pra molhar o gogó, indignada, dizendo achar um absurdo a Paula Toller, moça tão linda, famosa, não saber que é verruga e não berruga que se fala.

— Mas quando é que você ouviu a Paula Toller falar berruga, Ana Lúcia? – perguntou a irmã.

— Ela não falou, ela canta. Tá na letra, não reparou? Acabei de cantar no bis! Parece que bebe!

E cantou mais uma vez:

 

Diz pra eu ficar muda

Faz cara de mistério

Tira essa verruga (bermuda)

Que eu quero você sério

Tramas do sucesso

Mundo particular…

 

Ana Lúcia pegou o microfone: gente, alguém se habilita ou só depois dos goró? Resolveu liberar seu lado romântico, fechou os olhos, balançou a cabeça para os lados, e soltou “Noite do prazer”.

 

Na madrugada a vitrola rolando um blues

Trocando de biquíni sem parar

(Tocando B. B. King sem parar)

Sinto por dentro uma força vibrando uma luz

A energia que emana de todo prazer

 

A irmã, envergonhada, com todo jeito, diz que a letra não é bem assim.

— Por que você não vem aqui cantar e para de me corrigir na frente dos outros? Eu, hein!

E mandou um forró para alegrar ainda mais o ambiente.

 

Na sua boca eu viro fruta

Chupa que é viúva!

Chupa, chupa

Chupa que é viúva!

 

A filha adolescente, tomando sol, de costas, não se conteve e gritou mais do que ela:

— MÃE, É UVA! Chupa que é DE uva! Chupa que é de uva!

Ana Lúcia olhou feio para a filha, não se fez de rogada: só queria levantar o astral, vocês estão muito pra baixo hoje.

As pessoas continuavam bebendo, um ou outro adulto arriscava uma música mais antiga, enquanto os mais jovens se esgoelavam com rock pauleira num inglês qualquer nota. A coisa ficou animada. Ana Lúcia organizando tudo, anunciando os cantores e as músicas.

— E aquela do Dirceu, pessoal?

— Que Dirceu? Não conheço nenhum Dirceu cantor. Que música que ele canta? – falou a irmã amassando limão num copo.

— Ele não canta, ignorante! Quem canta é a Marina. A música é do Erasmo Carlos, não lembra? Mó sucesso.

Ana Lúcia cantou, sem ligar o aparelho, enquanto procurava a música: Você precisa de um homem pra chamar Dirceu (de seu), Mesmo que esse homem seja eu.

— Alguém aí se lembra do Dirceu?

— Dirceu?

Acabou o karaokê. O pessoal mudou o ritmo da gritaria para política brasileira. Aproveitei e saí à francesa.

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