Viagem noturna

O ônibus partia da rodoviária às 23h30 e não era leito. Leito pra quê, se ele nunca conseguiu dormir viajando? Estava tenso. Ia estudar (e morar) na Capital. Como seria? Seu pai ali do seu lado, segurando a barra e a mala.

Subiu os degraus do busão e viu logo de cara, na primeira fila, a Nereide. A Nereide!

A Nereide trabalhou na casa do Lulinho, amigo de infância, de arrumadeira. Certo dia, o Lulinho, então com suas 14 primaveras recém-completadas, apareceu na pracinha em que a turma se reunia e disse na lata: “Comi a Nereide!” A notícia mexeu com todos, afinal, era o primeiro amigo a transar, com a empregada, e dentro de casa! Ele quase morreu de inveja do companheiro emancipado.

A turma ia à casa do Lulinho jogar futebol de botão e ele não tirava os olhos da Nereide. Meio mulata, meio baixa, meio gorda, meio peituda, meio bonita. Ele achava ela o máximo. Ela dava. Mas não dava pra ninguém, só pro Lulinho.

De repente, a Nereide sumiu. Nunca mais tiveram notícias dela.

Os craques do botão passaram a frequentar a zona do baixo meretrício, bairro afastado do centro da cidade, assim que as primeiras penugens de seus respectivos buços começaram a aparecer. Havia um ritual, sempre aos sábados, antes de tomar o rumo da zona: ir para o bar da esquina da pracinha beber rum com coca-cola. Ficavam falando de futebol e contando vantagens com mulheres. Quando o cuba-libre batia, era hora de pegar os táxis no ponto em frente ao boteco e subir pra zona.

A turma só ficava lá olhando as putas e morrendo de vontade. Duros. De menor. Fazer o quê? A diversão era descobrir os homens casados entrando e saindo daquelas casas coloridas com janelinhas nas portas. Havia um código: porta com janelinha fechada, todas as mulheres da casa ocupadas, trabalhando; janelinha aberta, só entrar e escolher. E como tinha homem casado na zona. Descobriram que até o delegado, moralista (não admitia amassos no escurinho do cinema, por exemplo) e religioso (desfilava de braços dados com a esposa na missa das 10, e comungava), não saía de lá. Para sorte da turma, nunca pegaram seus pais na localidade.

Um sábado daqueles, outro amigo, o Minduim, saiu de uma das casas, conhecida como Sobradinho, a mais luxuosa de todas, aos berros, vocês não sabem quem está aí!, a Nereide!, a Nereide que trabalhou no Lulinho!

Agora ou nunca! Ele fez uma vaquinha com os amigos e correu pro Sobradinho. Janelinha da porta aberta. Entrou, catou a Nereide, pagou com dinheiro amassado. Comeu a Nereide!

E a Nereide, sua primeira e única transa, ali, toda tímida, na primeira fila do ônibus que o estava levando pela primeira vez para a Capital. Seu assento era lá atrás, o último. Despediu-se do pai e encaminhou-se pro seu lugar.

Foi mais fácil do que esperava convencer seu companheiro de assento que gostaria de viajar ao lado da prima. O cara foi lá pra frente e a Nereide sentou-se sorridente ao seu lado, no fundo do ônibus, para encarar 450 quilômetros de estrada.

A musa estava indo para a Capital em busca de realização.

— Costuma dormir no ônibus, Nereide?

— Quase nunca.

— Nem eu.

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