Vinho tinto

Quando cheguei em São Paulo, vindo de Lins, interior do estado, maioridade recém-completada, meu irmão me levou a uma festa de Natal na casa não sei de quem. Era uma turma grande de convidados, entre eles, Silvio Cesar, o cantor-galã, muito educado por sinal. A maioria da turma era de estudantes de Economia da USP, que meu irmão cursava, alunos do Delfim Neto. No caminho, o mano já foi avisando: vai estar assim de muié, fica de olho, a mulherada aqui transa numa boa, vai firme, só ficar prestando atenção que acaba sobrando uma (ou mais, se bobear).
Eu, que até então só fazia amor na zona, achei aquilo o máximo. Tem umas que gostam de beijar, aí, não tem erro, só chegar junto, ele me disse quando já estávamos tocando a campainha da casa. E que casa!
Nem bem entramos, surgiu uma mulher baixinha, me abraçou efusivamente desejando feliz Natal, deu um gole no cálice de vinho que estava na mão e me tascou um beijo na boca, me passando o líquido via oral, que, assustado, engoli.
Reparei que ela recebia os outros convidados homens sem essa cortesia toda.
Meu irmão logo sumiu entre os convidados e eu fiquei prestando atenção na festa, realmente repleta de mulheres bonitas, imaginando qual delas eu iria pegar, já que na capital o amor era livre.
Ali pelas tantas, a baixinha se aproxima de mim: vamos repetir a dose, meu bem? E me deu novamente um beijo inundado de vinho tinto, que engoli de novo. E desapareceu cantarolando entre as pessoas.
Era uma festa de arromba, como se dizia na época. Pessoal fumando maconha livremente no meio da sala, nos jardins, nos quartos, na cozinha. Gente se dando bem, beijando pelos cantos. Eu, meio que perdido ali naquele lugar de um outro mundo, sentado numa poltrona, sem ter beijado ninguém ainda – não considerei os beijos da baixinha atrevida -, já com sono.
De repente surge o meu irmão com a boca (e a gola da camisa) suja de batom. Vamos, o Silvio Cesar vai dar carona.
Na porta, a baixinha de novo: não vai embora sem a saideira, meu bem! E me tascou mais outro beijo na boca com direito ao vinho tinto de sempre, que, pela terceira vez, engoli.
Já no carro, meu irmão e o Silvio Cesar ficaram tirando uma da minha cara:
— Tá ficando famoso, hein, moleque!
— Famoso, eu?
— Vai dizer que não sabe quem é aquela mulher que ficou no seu pé e te encheu de beijos na boca.
— Sei lá! Quem é?
Era a Ângela Maria, a dona da casa, aos 42 anos de idade. A Rainha do Rádio.

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