Vista para o mar

Benedita nasceu e sempre viveu na beira do mar, na Barra do Sahy, litoral Norte de São Paulo. Caiçara total. Quando pequena, viajava de bote com os pais para as praias vizinhas (Barra do Una, Preta, Baleia, Camburi, Boissucanga, Maresias), porque era boa para fazer contas. Iam vender peixe, pescado pelo pai e irmãos, fonte de sustento da família. Não havia estradas navegáveis na época, passavam apenas caminhões, e eles só tinham o barquinho.
Benê cresceu ouvindo o canto dos pássaros, nadando nas águas transparentes daquele mar, andando com os pés descalços pra cima e pra baixo com os irmãos, primos e amigos. Sempre de bom humor, feliz da vida. Adorava brincar com os cachorros, igualmente caiçaras, desses que só latem quando estão felizes. Ela nunca saiu de perto do mar.
Benê casou-se, teve duas filhas, logo ficou viúva. Para sustentar a prole, resolveu ser empresária, afinal, sempre teve facilidade com os números. O negócio: vender pastel na praia para os farofeiros que lotaram e lotearam o belo pedaço desse litoral.
Para ela foi até bom esse boom. Com a venda dos produtos – Pastel da Benê – ela construiu no terreno da família, na beira do mar, uma casa com quatro dormitórios e terraço em volta, que aluga para turistas; e mais outras duas, menores, também próximas da areia, onde vive com as filhas, genros, netos e os quatro vira-latas de raça que adotou.
Eu e os meus filhos adorávamos comer os pastéis da Benê e ouvir suas histórias. Era divertido conversar com ela, senso de humor à flor da pele. Certo dia, ela me chamou na barraca. Estava de olho num bando de garotas com biquínis sumaríssimos, quase todas com as bundas praticamente de fora.
— Olha só aquela lá! Vê se aquilo é maiô que se apresente!
— Cá entre nós, Benê, é bonito.
— Bonito… Só falta aparecer o buraco da empresa.
Benê tirou um dinheirinho escondido do guarda-roupa e resolveu fazer, pela primeira vez na vida, uma viagem longa. Foi para Curitiba, de ônibus, visitar a prima Doralice.
A parente amou hospedá-la. Passearam pela capital paranaense, divertiram-se, deram muitas risadas com o jeito diferente da Benê ver as coisas e o mundo. A prima ficou tão encantada com a visita, que a convidou para viajar. Viagem internacional. Paris. Sim, Paris, a encantadora capital francesa.
— Bebeu, né, Doralice? Nunca saí do Sahy e você já me inventa de me levar pro estrangeiro? Que chic, Paris! Parri que se fala, né? Não tenho nem roupa pra viajar de avião. Vou voltar pros meus pastéis lá na praia, que tá de bom tamanho.
Doralice insistiu, convenceu a prima.
Benê viajou da Barra do Sahy direto para Paris, com escala em São Paulo só para pegar o avião. A família e os amigos foram em peso para o bota-fora no aeroporto. Foi uma festa. Ela, morrendo de medo.
— E se essa coisa cair no mar, adianta saber nadar? Olha só como eu tou suando frio, minha filha.
— Mãe, fotografa tudo! Quero saber de tudo quando a senhora voltar. Vê se arruma um franceizão por lá.
— Pode deixar, pode deixar. Toma conta dos pastéis, tira os carrapatos dos cachorros.
Na Barra do Sahy não se falava outra coisa, todo mundo ficou sabendo da viagem da Benê.
Quando ela voltou, fui lá na barraca para saber das novidades. Pela primeira vez a vi séria. Não gostara nem um pouco da viagem.
— Mas você não foi na Torre Eiffel?
— Aquela com os parafusos gigantes pra fora? Aquilo venta mais que o Noroeste aqui do Sahy. Só tinha japonês, tudo tremendo de frio, tirando retrato. Essa parte foi até engraçada, subiram lá em cima e não levaram agasalho. Bem que eu tentei avisar. Ô lugar gelado esse Paris!
— Mas foi no Louvre?
— Fui naonde?
— No Museu do Louvre, aquele que tem a famosa Monalisa.
— Ah, fui sim, a Doralice me mostrou essa monalisa aí. Pelo que ela me falou no avião, pensei que fosse ver um quadro deste tamanho, uma mulher linda, meia pelada, com uns peitão de fora, sabe, assim? E o que que é aquilo? Um quadrinho desse tamaninho, com uma mulher toda vestida, com um cabelo lambido, cara de desconfiada, mãozinha cruzada, coisa mais sem graça.
— Mas o que mais te chamou a atenção em Paris, Benê?
— Os cachorros!
— Cachorros?
— É! Lá tem cachorro pra tudo quanto é lado. Vai no banco, tem um lá, grandão, de guarda. Você passa e ele nem te cheira. Pega um táxi, tem outro no banco da frente, fingindo que tá dormindo. Tudo fresco, nariz empinado, não ligam pra gente. Nunca vi cachorrada tão metida a besta. Nem pum eu vi algum soltar, acredita?
— Mas você não brincava com eles?
— E eles entendem brasileiro?
— Mas…
— …mais nada, meu amigo! Parri nevermor, como se diz.
— …
— Olha esse mar!

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