Vossa Excelência

Ele se elegeu o vereador mais votado da pequena cidade pela terceira vez consecutiva. Anão. Autoritário, jamais se incomodou com a diminuta estatura e sempre falou alto e soltou o verbo na tribuna. Quer dizer, na frente da tribuna. Por causa do seu tamanho, seus discursos nunca foram de dentro do púlpito, porque mal aparecia sua cabeça e reluzente careca quando subia lá.

Assim que tomou posse para mais outra legislatura, foi logo conversar com o presidente da Câmara. A partir de agora, queria falar do lado interno do palanque, como seus ilustres colegas. Mas o senhor infelizmente não alcança, nobre vereador, disse o comandante da casa, meio sem jeito. Não interessa, não interessa, dê um jeito, irritou-se o edil, balançando suas minúsculas mãos, como sempre faz quando está agitado.

O mandatário pensou em um arranjo para satisfazer o egrégio colega e chegou à solução: construir dois ou três degraus de madeira para ser colocado no interior do oratório para quando o vereador nanico fosse proferir suas inflamadas pregações.

Apoquentado, o líder da câmara quis saber o motivo de tal capricho, já que suas arengas sempre foram feitas defronte à tribuna e sempre bem aceitas pelos parceiros camaristas.

— Vossa Excelência tem conhecimento que estou indo para meu terceiro mandato, nunca tive a vez de discursar ali de dentro, nunca tive a oportunidade de bater a mão em cima da tribuna em sinal de protesto. Nunca! Só quero poder socar a bancada! O resto é palavrório, Vossa Excelência está esfalfado em sabê-lo.

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